Vicky Cristina Barcelona é um filme fresco, é a melhor palavra de que me lembro agora. Fresco. Mas pouco acrescenta à filmografia de Woody Allen que, por terras de Espanha, acabou por perder um pouco a identidade. Há marcas no filme que lhe atribuímos facilmente, como o narrador que nos apresenta as personagens e alguns diálogos de ritmo mais acelerado (e neurótico) de Vicky e Cristina. E Woody continua a ser um mestre das palavras e das situações. Mas o seu olhar parece perdido nas cores de Gaudí e Miró. Fez-me sentir saudades de Nova Iorque.
Em Barcelona, temos Vicky e Cristina. Duas amigas que desembarcam num Verão castelhano com objectivos diferentes. Aliás, não podiam ser mais diferentes. Vicky apresenta-se como uma mulher que gosta de ter os pés assentes na terra, correr poucos riscos. Tem o futuro desenhado num futuro casamento confortável e uma vida organizada. Cristina é uma sonhadora insatisfeita. Não sabe o que quer, apenas o que não quer. Vive a vida e o amor sem rede, à espera de ser arrebatada. Uma noite conhecem Juan Antonio, um pintor espanhol com fama de sedutor problemático. E páro por aqui. Para não contar o filme a ninguém. O que se segue são desventuras amorosas, dúvidas existenciais, humor e Maria Elena. A intempestuosa e sedutora ex-mulher de Juan Antonio que aparece na história e rouba o filme só para ela.
Num tom literário, Woody explora os sentimentos, pensamentos, dúvidas e devaneios destas personagens, divididas entre a razão e o coração. Quase vemos, no bom sentido, as letras do texto a serem ditas pelos actores. Não é um Woody vintage, como já o disse antes, mas um aperitivo saboroso. E parece que Woody, afinal, também já tem saudades da sua cidade.
28 novembro 2008
Vicky Cristina Barcelona
26 novembro 2008
24 novembro 2008
Mode: Edit #45
21 novembro 2008
Primeiras impressões...
... de Vicky Cristina Barcelona.
A Penélope Cruz só é boa actriz em Espanha. E é o melhor deste novo Woody Allen.
20 novembro 2008
Why is a raven like a writing desk?
"You should learn not to make personal remarks,' Alice said with some severity; 'it's very rude.
The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was, 'Why is a raven like a writing-desk?"
Alice in Wonderland, Lewis Carroll
PS - Fui a única a lembrar-me de David Bowie?
17 novembro 2008
14 novembro 2008
Estoril Film Festival: ano I, versão II
Depois de European Film Festival, que funcionou como um ano zero, chega agora o Estoril Film Festival. O conceito é o mesmo, o local também e decorre entre 14 e 22 de Novembro.
O Festival que trouxe o ano passado a Portugal Pedro Almodóvar e David Lynch, este ano apresenta Catherine Deneuve, Bernardo Bertolucci, Agnès Varda, Stephen Frears, Vincent Cassel, Michael Pitt, Louis Garrel, entre outros.
Em competição vão estar 14 filmes:
35 RHUMS de Claire Denis França
L’APPRENTI de Samuel Collardey França (com a presença do realizador)
EL BRAU BLAU de Daniel Villamediana Espanha (com a presença do realizador)
EL CANT DELS OCELLS de Albert Serra Espanha (com a presença do realizador)
4 COPAS de Manuel Mozos Portugal (com a presença do realizador e elenco)
PRANZO DI FERRAGOSTO de G. De Gregorio Itália
SCHULTES de Bakur Bakuradze Rússia (com a presença do realizador)
HOOKED de Adrian Sitaru Roménia
CLOUD 9 de Andreas Dresen Alemanha (com a presença de Ursula Werner)
INVOLUNTARY de Ruben Östlund Suecia
WILD FIELD de Mikhail Kalatozishvili Rússia (com a presença do realizador)
TULPAN de Sergey Dvortsevoy Rússia (com a presença do realizador)
WE’VE NEVER BEEN TO VENICE de B. Kutin Eslovenia (com a presença do realizador)
SUMMER BOOK de Seyfi Teoman Turquía
E fora de competição:
RACHEL GETTING MARRIED de Jonatham Demme EUA
VICKI CRISTINA BARCELONA de Woody Allen EUA
HURT LOCKER de Kathryn Bigelow EUA
REDBELT de David Mamet EUA
MESRINE de Jean-François Richet França (com a presença do realizador e Vincent Cassel)
FOUR NIGHTS WITH ANNA de Jerzy Skolimowski PL, FR (com a presença do realizador)
LES PLAGES D’AGNÈS de Agnès Varda França (com a presença da realizadora)
LA FRONTIERE DE L’AUBE de Philippe Garrel França (com a presença de Louis Garrel)
LIVERPOOL de Lisandro Alonso Argentina (com a presença do realizador)
NUIT DE CHIEN de Werner Schroeter França, Portugal (com a presença de Pascal Gregory)
STILL WALKING de Hirokazu Koreeda Japão
NIGHT AND DAY de Sang-soo Hong China
VEGAS: Based on a true story de Amir Naderi EUA
SECRETOS de Valeria Sarmiento Chile (com a presença da realizadora)
L’IDIOT de Pierre Léon França (com a presença do realizador)
Além destes filmes, vão haver homenagens a Bernardo Bertolucci, Tim Burton e Paul Newman, na sua faceta como realizador.
Mais informações: http://www.estorilfilmfestival08.com/
13 novembro 2008
Blindness
"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."
Ensaio Sobre a Cegueira não teve um caminho fácil entre as palavras e as imagens. Durante anos, José Saramago recusou ceder os direitos de um livro que se tornou um dos seus maiores sucessos. Durante anos, as únicas imagens seriam as que cada leitor criasse na imaginação. mas um dia, Don McKellar, argumentista, e Niv Fichmann, produtor, bateram à porta do escritor. E Saramago, confessa o próprio, simpatizou e cedeu-lhes Ensaio Sobre a Cegueira.
O livro (e o filme) conta a história de uma misteriosa cegueira branca. Uma parábola sobre a crise de valores da sociedade actual e o desmoronar completo de uma civilização. Não há aqui identificação de cidades, lugares, países. Nem sequer as personagens têm um nome. Ao primeiro homem a cegar, Saramago chamou-lhe o primeiro cego. O primeiro a ser atingido pelo mal branco.
Segue-se o médico que o examinou. E, aos poucos, todos cegam. À medida que isso acontece e que os afectados são colocados em quarentena, em condições desumanas, depressa as regras começam a desaparecer, dando lugar ao caos e desordem. É verdade que o livro e o filme são violentos, diz Saramago. Não o quis assim, mas a violência é uma consequência lógica perante a situação que é criada. Numa sociedade organizada em função da vista, quando esta se perde, vai tudo abaixo. Somos capazes do melhor e do pior, acrescenta o escritor. Principalmente do pior.
Na desordem e no caos, apenas uma pessoa vê o que se passa. A mulher do médico. É a única que não foi afectada pela cegueira branca, mas também lhe cabe, a ela, observar o degradar da civilização. Filme e livro sublinham a mesma ideia que, aliás, está escrita na contracapa da obra: "Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara." O caminho mais fácil é a indiferença. O encolher de ombros, o desviar de olhar. Mas também há esperança na desordem de Ensaio Sobre a Cegueira. Quando nos mostra a humanidade dos que são obrigados a confiar nos outros para sobreviver. Daqueles que tentam, no meio do caos, manter a dignidade.
Apesar de não considerar o esforço de Fernando Meirelles, o realizador, uma obra-prima, também não lhe fiquei indiferente. A obra, o tema, o que mexe connosco, o que custa a ver, tudo isso é demasiado para fechar, simplesmente, os olhos.









