12 março 2007

Fantas 2007

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E tudo começou com Pan's Labyrinth, de Guilhermo del Toro. Um filme que muitos acusam de simplista na sua visão do bem e do mal como absolutos e que eu quis ver como uma fantasia, um conto de fadas, onde esse maniqueísmo é (quase) obrigatório. É uma história que se divide entre o real, de uma Espanha Franquista, repleta de maldade e momentos tristes. E a fuga a esse real, num mundo que tanto pode ser imaginado pela jovem Ofélia, como pode ser, de facto, uma realidade alternativa. É um filme repleto de metáforas e analogias, como a cena do banquete, por isso, negar a orientação ideológica do filme não faz sentido.


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Seguiu-se Renaissance, de Christian Volckman. Obra de arrojo visual inegável, a recordar o forte contraste preto e branco de Sin City, mas sem o charme do universo de mulheres fatais e homens de queixo quadrado criado por Frank Miller. Renaissance, esgotado o impacto visual, é um filme que vai beber aos Film Noir dos anos 40/50 e a filmes de ficção científica, mas que nunca se liberta das obras onde foi buscar a inspiração, nunca se reinventa, caindo em clichés de argumento e na previsibilidade dos acontecimentos.


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>No mesmo dia de Renaissance, vi ainda mais três filmes. Um deles foi Time, de Kim Ki-duk. História de obsessões, sobre o tempo que passa indiferente ao nosso querer e a vontade de o contornar. Sob a sua força, a nossa natureza efémera e a nossa busca de identidade. Sobre a questão do que nos define realmente. E depois há aquelas fabulosas esculturas que, mais do que a sua natureza invulgar, representam a permanência, a imutabilidade e nos provam a nossa mudança e a nossa fragilidade perante a força do tempo.


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The Host, de Bong Joon-ho surpreendeu-me pelo humor e quase non-sense que apresenta. Surpreendeu-me também pela carga dramática, concentrada naquela família que tanto se ama. Desrespeitanto o mais básico dos códigos dos filmes de terror, o realizador opta por nos mostrar, à luz do dia, e no início do filme a causa de todos os males - o monstro. Mas, mais do que um "filme de monstro", The Host é a história da luta duma família para permancer unida. Filme de entretenimento, mas também repleto de metáforas políticas e sociais, The Host é uma experiência sem dúvida diferente.


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O quarto filme do dia foi The Woods, de Lucky McKee. Ao meu lado tinha dois amigos entusiasmados com a ideia de verem colegiais num filme de terror. Mas até eles acharam o filme banal. Que fará eu...


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Isabella é um grito que ecoa na voz de Yan. Isabella, a sua cadela, perdeu-se nas ruas de Macau e ela, Yan, deambula nessas e outras buscas. Ho-Cheung Pang conta uma história que tem por fundo Macau, no último ano de domínio português, e essa presença lusa sente-se por todo o filme. Yan, menina sem rumo certo encontra o pai que não sabia ser pai. Entre eles nasce uma relação, no mínimo, diferente. Um filme estranho, mas belo.


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Não consegui rever Branco e Vermelho, mas Bleu, de Krzysztof Kieslowski foi a minha única incursão ao Pequeno Auditório. Não via o filme há anos e fiquei admirada por ter andado tanto tempo distante desta trilogia. Entretanto, já revi as outras duas cores em casa, sem a magia do grande ecrã, é certo... mas com toda a sua força como história(s). A liberdade é azul em Kieslowski, numa obra sublime sobre a vida e a liberdade de estar vivo.


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A música que sai de um buraco significa o desejo de fuga de um mundo onde não se sente. Os beijos trocam-se com indiferença, o amor faz-se de forma mecânica, a vida vive-se sem emoção. Em The Bothersome Man, de Jens Lien, um homem sem memória chega a uma cidade desconhecida, onde lhe é dado um emprego e uma esposa. Mas, aos poucos, começa a estranhar aquele mundo perfeito, onde ninguém sonha e todos parecem desligados, sem emoções. A descobrir!


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A premissa prometia (nem que fosse pela curiosidade) - tradições e civilizações chinesa e finlandesa reunidas num filme. Mas Jade Warrior, de Antti-Jussi Annila, apaixonado pelas duas mitologias, desilude. História de um guerreiro dos tempos ancestrais, na China, que luta contra o seu destino para ficar com a sua amada. Algo que só irá acontecer, milhares de anos depois, na Finlândia. A ligação entre o presente e os flashbacks ao passado torna-se, por vezes, confusa, tal como os elementos da história que nos vão sendo dados a conhecer.


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To Sir With Love, de Lim Dae-wung, acaba por ser um filme sobre insegurança, apesar da sua ideia base de vingança. Insegurança que nos leva a carregar marcas, a martirizar-nos com acontecimentos do passado, aqui levada ao extremo, claro. Miss Park era uma professora primária cujos laivos de malvadez deixaram marcas nos seus alunos. Dezasseis anos depois, uma visita de antigos alunos à velha professora, agora numa cadeira de rodas, torna-se uma expiação de fantasmas não esquecidos. Shasher movie coreano que revisita os códigos do mesmo tipo de filmes americanos dos anos 80, falta a este To Sir With Love algum suspense.


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Foi, geralmente, mal recebido pelo público e crítica lá fora. Mas o filme de Chen Kaige, The Promise, é uma bela história sobre amor e liberdade, muito mais do que um mero filme de artes marciais. Mais do que a história da menina que faz uma promessa da qual se arrepende, a mim tocou-me especialmente a história do escravo que já foi livre e da maldição de um seu conterrâneo... e mais não digo.


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Simples mas eficaz. Assim se resume El Método, de Marcelo Piñeyro. Sete candidatos a um emprego são reunidos numa sala onde têm de passar uma série de provas para, no fim, restar apenas um. O filme desenvolve-se de forma inteligente e tem boas personagens, muito específicas, que interagem num espaço claustrofóbico, onde a suspeita se instala. Do lado de fora do edifício, decorre uma manifestação anti-globalização onde se luta por causas maiores; ali, depressa se ultrapassa a cortesia formal, para se passar às inseguranças e aos ataques em nome de um emprego. Apesar de tudo, esperava um final diferente, mais forte.


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Michaela acredita estar possuída. Submete-se, por isso, a diversos exorcismos e acaba por morrer. Na realidade, sofria de epilepsia e alucinações, mas a estrita educação católica dizia-lhe algo diferente. Baseado numa história real, Requiem, de Hans-Christian Schmid, é o filme de uma actriz, Sandra Hüller, numa obra sóbria e inteligente.

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Sem desilusão, porque não havia expectativas. Re-cycle, de Oxide Pang Chun e Danny Pang, é mau. Ponto final.


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Filme de sonhos e pesadelos. Em Paprika, de Kon Satoshi, um aparelho que permite aos psiquiatras entrarem nos sonhos dos seus pacientes, é roubado. Mas é também o ponto de partida para um festival de imaginação e de maravilha visual, que não esquece o argumento. É poesia em forma de animação, com ficção científica q.b.


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Exemplar (quase) perfeito dos mais belos melodramas coreanos. Ji-eun Kang conta-nos, em Love Phobia, a história de uma menina de gabardine amarela que afirma ser uma extraterrestre e do menino que se apaixona por ela. E não escrevo nem mais uma palavra :)


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Outro que entra na lista do pior que vi neste Fantasporto. Baseado num jogo de vídeo, Silent Hill, de Christophe Gans, está cheio de clichés, de falta de imaginação e, principalmente, de bom gosto.


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O festival, para mim, não encerrou com The Fountain mas com Hana, de Koreeda Hirokazu. Uma bela surpresa que conta a história de samurais fora do tempo da guerra. Homens de espada e perícia, cujo prestígio não serve de muito na paz. Numa pequena aldeia, um samurai quer vingar o pai e ganhar a honra, mas o fato que usa não se equipara às fracas capacidades de espadachim. O filme dá-nos um retrato das personagens da aldeia, numa obra dramática sobre a amizade, o companheirismo e o amor. Delicioso.

06 março 2007

Cinemateca 03/07

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Todos os meses, sem excepção, sublinho no programa da Cinemateca Portuguesa os filmes que pretendo ir ver.

Todos os meses, sem excepção, acabo por só ir ver um ou dois... ou mesmo nenhum.

Alguns sublinhados de Março:

Dia 01 - 21h30 - ZELIG de Woody Allen
Dia 03 - 15h30 - BRIGADOON de Vincente Minnelli
Dia 05 - 21h30 - STROMBOLI de Roberto Rosselini
Dia 08 - 19h00 - TIMBUKTU de Jacques Torneur
Dia 10 - 15h30 - THE DARK CORNER de Henry Hathaway
Dia 14 - 19h00 - BRUTE FORCE de Jules Dassin
Dia 17 - 19h00 - LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE de Luis Buñuel
Dia 20 - 19h00 - LE MÉPRIS de Jean-Luc Godard
Dia 24 - 15h30 - BALL OF FIRE de Howard Hawks
Dia 31 - 21h30 - BEAT THE DEVIL de John Huston

Balanço Fevereiro - 0

05 março 2007

I'm back!

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26 fevereiro 2007

22 fevereiro 2007

21 fevereiro 2007

35 x 3

São 35 cineastas de 25 países. Juntos vão realizar Chacun son cinéma, um filme de sketches criado para celebrar a 60ª edição do Festival de Cannes. Uma obra que pretende descobrir o estado de espírito, inspirado pela sala de cinema, de cada realizador. Cada sketch vai ter a duração de três minutos.

Em comunicado, o presidente do Festival de Cannes sublinha: "Il s'est agi de rassembler un groupe de créateurs, tous universellement reconnus, représentant à la fois leur pays et une conception orgueilleuse du cinéma. Aucun réalisateur n'a eu connaissance des autres fragments, ni même des synopsis de ses confrères".

A saber, estão envolvidos no projecto: Theo Angelopoulos, Olivier Assayas, Bille August, Jane Campion, Youssef Chahine, Chen Kaige, Michael Cimino, Ethan e Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Raymond Depardon, Atom Egoyan, Amos Gitai, Hou Hsiao Hsien, Alejandro Gonzalez Inarritu, Aki Kaurismaki, Abbas Kiarostami, Takeshi Kitano, Andrei Konchalovsky, Claude Lelouch, Ken Loach, Nanni Moretti, Roman Polanski, Raoul Ruiz, Walter Salles, Elia Suleiman, Tsai Ming liang, Gus Van Sant, Lars Von Trier, Wim Wenders, Wong Kar Wai e Zhang Yimou.

O filme vai ser apresentado no dia 20 de Maio, durante o Festival (que decorre de 16 a 27 de Maio) .

AFP 4 - 20-02-2007 15:19:00 - Cinéma-festival-Cannes

20 fevereiro 2007

Como o Cinema era belo...

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Foram apenas quatro filmes.

Mas a palavra "apenas" parece-me vã quando aplicada a estes quatro filmes.

Seria, portanto, errado afirmar que nada descobri neste ciclo.

Nota: cliquem nas imagens para aceder aos respectivos textos.

19 fevereiro 2007

Iwo Jima

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Um momento que ficou na história, captado numa fotografia que se tornou um símbolo. Em Fevereiro de 1945, a guerra estava ganha na Europa, mas continuava no Japão. Em Iwo Jima, onde aconteceu uma das batalhas mais sangrentas, seis soldados erguem uma bandeira americana no Monte Suribachi. Um acto formal que se tornou uma imagem de esperança para o público americano, cansado da guerra.

A fotografia seria publicada em todos os jornais e transformou os soldados que sobreviveram em heróis. Um título que acabaria por se revelar demasiado pesado. Os três soldados que regressaram com vida à América, tiveram depois de percorrer todo o país, para utilizarem o poder do sentimentalismo provocado nas pessoas num esforço para garantir os fundos de guerra.

No entanto, o filme de Clint Eastwood, apesar de estar cheio de humanidade e de estar baseado em bons valores, não resulta totalmente. O filme perde-se numa estrutura confusa, pouco ágil, que nos afasta, espectadores. Numa história que, à partida, tinha tudo para nos sensibilizar, isso acaba por não acontecer. Flags of Our Fathers não é um filme totalmente falhado, mas é um filme que podia ter sido muito mais. E isso que lhe falta deixa-nos um travo de desilusão.

O filme de Clint Eastwood é baseado no livro de James Bradley e constitui um duplo esforço na carreira do cineasta. Se Flags of Our Fathers é o lado americano de uma batalha, pouco depois de terminada a rodagem, Clint Eastwood iniciou Letters From Iwo Jima, o lado japonês da história.


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Iwo Jima é uma ilha vulcânica. Aliás, o próprio nome significa enxofre. É um pedaço de terra de areias negras, sem vida. Mas, nos dias de hoje, representa um túmulo sagrado para os japoneses, pois foi ali que morreram, em 1945, perto de 22 mil soldados imperiais.

Letters From Iwo Jima é, portanto, a segunda parte do díptico de Clint Eastwood. Baseado em cartas de soldados japoneses enviadas para as famílias, o filme mostra-nos como os soldados lutaram pela defesa de uma pequena ilha do Pacífico, mas de grande importância estratégica para o Japão. O filme foca quase sempre o campo de batalha, mas conta-nos também as histórias de alguns destes soldados que deixaram para trás as famílias por uma batalha de honra. Clint Eastwood evoca os códigos de ética destes homens, destinados a lutar até ao limite. Depois de ficaram sem reforços navais e aéreos, e depois, sem comida nem água. É quando o desespero toma conta dos soldados.

A segunda parte do díptico de Iwo Jima é tudo o que Flags of Our Fathers não foi - um filme sublime, de grande intensidade dramática e que sabe desenvolver as suas personagens. Uma obra sobre o absurdo da guerra, de personagens... melhor, de pessoas no limite, que se sacrificam por uma causa. Pessoas que quando chegam à ilha sabem que já estão mortas, que o seu papel é morrer pela honra, pelo país. Filme de fantasmas, de uma simplicidade aterradora e crua, uma obra onde Clint Eastwood quis demonstrar, mais do que nunca, o que considera ser a grande futilidade da guerra - o sacrifício da juventude. Algo, diz o realizador, que não pode ser esquecido.