E tudo começou com Pan's Labyrinth, de Guilhermo del Toro. Um filme que muitos acusam de simplista na sua visão do bem e do mal como absolutos e que eu quis ver como uma fantasia, um conto de fadas, onde esse maniqueísmo é (quase) obrigatório. É uma história que se divide entre o real, de uma Espanha Franquista, repleta de maldade e momentos tristes. E a fuga a esse real, num mundo que tanto pode ser imaginado pela jovem Ofélia, como pode ser, de facto, uma realidade alternativa. É um filme repleto de metáforas e analogias, como a cena do banquete, por isso, negar a orientação ideológica do filme não faz sentido.
Seguiu-se Renaissance, de Christian Volckman. Obra de arrojo visual inegável, a recordar o forte contraste preto e branco de Sin City, mas sem o charme do universo de mulheres fatais e homens de queixo quadrado criado por Frank Miller. Renaissance, esgotado o impacto visual, é um filme que vai beber aos Film Noir dos anos 40/50 e a filmes de ficção científica, mas que nunca se liberta das obras onde foi buscar a inspiração, nunca se reinventa, caindo em clichés de argumento e na previsibilidade dos acontecimentos.
>No mesmo dia de Renaissance, vi ainda mais três filmes. Um deles foi Time, de Kim Ki-duk. História de obsessões, sobre o tempo que passa indiferente ao nosso querer e a vontade de o contornar. Sob a sua força, a nossa natureza efémera e a nossa busca de identidade. Sobre a questão do que nos define realmente. E depois há aquelas fabulosas esculturas que, mais do que a sua natureza invulgar, representam a permanência, a imutabilidade e nos provam a nossa mudança e a nossa fragilidade perante a força do tempo.
The Host, de Bong Joon-ho surpreendeu-me pelo humor e quase non-sense que apresenta. Surpreendeu-me também pela carga dramática, concentrada naquela família que tanto se ama. Desrespeitanto o mais básico dos códigos dos filmes de terror, o realizador opta por nos mostrar, à luz do dia, e no início do filme a causa de todos os males - o monstro. Mas, mais do que um "filme de monstro", The Host é a história da luta duma família para permancer unida. Filme de entretenimento, mas também repleto de metáforas políticas e sociais, The Host é uma experiência sem dúvida diferente.
O quarto filme do dia foi The Woods, de Lucky McKee. Ao meu lado tinha dois amigos entusiasmados com a ideia de verem colegiais num filme de terror. Mas até eles acharam o filme banal. Que fará eu...
Isabella é um grito que ecoa na voz de Yan. Isabella, a sua cadela, perdeu-se nas ruas de Macau e ela, Yan, deambula nessas e outras buscas. Ho-Cheung Pang conta uma história que tem por fundo Macau, no último ano de domínio português, e essa presença lusa sente-se por todo o filme. Yan, menina sem rumo certo encontra o pai que não sabia ser pai. Entre eles nasce uma relação, no mínimo, diferente. Um filme estranho, mas belo.
Não consegui rever Branco e Vermelho, mas Bleu, de Krzysztof Kieslowski foi a minha única incursão ao Pequeno Auditório. Não via o filme há anos e fiquei admirada por ter andado tanto tempo distante desta trilogia. Entretanto, já revi as outras duas cores em casa, sem a magia do grande ecrã, é certo... mas com toda a sua força como história(s). A liberdade é azul em Kieslowski, numa obra sublime sobre a vida e a liberdade de estar vivo.
A música que sai de um buraco significa o desejo de fuga de um mundo onde não se sente. Os beijos trocam-se com indiferença, o amor faz-se de forma mecânica, a vida vive-se sem emoção. Em The Bothersome Man, de Jens Lien, um homem sem memória chega a uma cidade desconhecida, onde lhe é dado um emprego e uma esposa. Mas, aos poucos, começa a estranhar aquele mundo perfeito, onde ninguém sonha e todos parecem desligados, sem emoções. A descobrir!
A premissa prometia (nem que fosse pela curiosidade) - tradições e civilizações chinesa e finlandesa reunidas num filme. Mas Jade Warrior, de Antti-Jussi Annila, apaixonado pelas duas mitologias, desilude. História de um guerreiro dos tempos ancestrais, na China, que luta contra o seu destino para ficar com a sua amada. Algo que só irá acontecer, milhares de anos depois, na Finlândia. A ligação entre o presente e os flashbacks ao passado torna-se, por vezes, confusa, tal como os elementos da história que nos vão sendo dados a conhecer.
To Sir With Love, de Lim Dae-wung, acaba por ser um filme sobre insegurança, apesar da sua ideia base de vingança. Insegurança que nos leva a carregar marcas, a martirizar-nos com acontecimentos do passado, aqui levada ao extremo, claro. Miss Park era uma professora primária cujos laivos de malvadez deixaram marcas nos seus alunos. Dezasseis anos depois, uma visita de antigos alunos à velha professora, agora numa cadeira de rodas, torna-se uma expiação de fantasmas não esquecidos. Shasher movie coreano que revisita os códigos do mesmo tipo de filmes americanos dos anos 80, falta a este To Sir With Love algum suspense.
Foi, geralmente, mal recebido pelo público e crítica lá fora. Mas o filme de Chen Kaige, The Promise, é uma bela história sobre amor e liberdade, muito mais do que um mero filme de artes marciais. Mais do que a história da menina que faz uma promessa da qual se arrepende, a mim tocou-me especialmente a história do escravo que já foi livre e da maldição de um seu conterrâneo... e mais não digo.
Simples mas eficaz. Assim se resume El Método, de Marcelo Piñeyro. Sete candidatos a um emprego são reunidos numa sala onde têm de passar uma série de provas para, no fim, restar apenas um. O filme desenvolve-se de forma inteligente e tem boas personagens, muito específicas, que interagem num espaço claustrofóbico, onde a suspeita se instala. Do lado de fora do edifício, decorre uma manifestação anti-globalização onde se luta por causas maiores; ali, depressa se ultrapassa a cortesia formal, para se passar às inseguranças e aos ataques em nome de um emprego. Apesar de tudo, esperava um final diferente, mais forte.
Michaela acredita estar possuída. Submete-se, por isso, a diversos exorcismos e acaba por morrer. Na realidade, sofria de epilepsia e alucinações, mas a estrita educação católica dizia-lhe algo diferente. Baseado numa história real, Requiem, de Hans-Christian Schmid, é o filme de uma actriz, Sandra Hüller, numa obra sóbria e inteligente.
Sem desilusão, porque não havia expectativas. Re-cycle, de Oxide Pang Chun e Danny Pang, é mau. Ponto final.
Filme de sonhos e pesadelos. Em Paprika, de Kon Satoshi, um aparelho que permite aos psiquiatras entrarem nos sonhos dos seus pacientes, é roubado. Mas é também o ponto de partida para um festival de imaginação e de maravilha visual, que não esquece o argumento. É poesia em forma de animação, com ficção científica q.b.
Exemplar (quase) perfeito dos mais belos melodramas coreanos. Ji-eun Kang conta-nos, em Love Phobia, a história de uma menina de gabardine amarela que afirma ser uma extraterrestre e do menino que se apaixona por ela. E não escrevo nem mais uma palavra :)
Outro que entra na lista do pior que vi neste Fantasporto. Baseado num jogo de vídeo, Silent Hill, de Christophe Gans, está cheio de clichés, de falta de imaginação e, principalmente, de bom gosto.
O festival, para mim, não encerrou com The Fountain mas com Hana, de Koreeda Hirokazu. Uma bela surpresa que conta a história de samurais fora do tempo da guerra. Homens de espada e perícia, cujo prestígio não serve de muito na paz. Numa pequena aldeia, um samurai quer vingar o pai e ganhar a honra, mas o fato que usa não se equipara às fracas capacidades de espadachim. O filme dá-nos um retrato das personagens da aldeia, numa obra dramática sobre a amizade, o companheirismo e o amor. Delicioso.




























