Naquela cidade tudo é perfeito, idílico. Todos têm belas casas de cancela branca, jardins tratados e erva podada. Ali, as mães dedicam-se aos filhos quase exclusivamente. Passam as tardes no jardim infantil, em alegre rotina, de conversas do dia-a-dia. Estamos numa pequena cidade suburbana, nos Estados Unidos, onde os vizinhos se conhecem e partilham hábitos.
A esta comunidade regressa um homem condenado, há dois anos, por um crime sexual. Recebido como um monstro, é hostilizado e temido. A sua fotografia é colocada por toda a cidade, obra da recém-criada comissão de pais preocupados com a segurança das suas crianças. Mas no submundo de quem condena, também existem segredos.
Sarah sente-se desajustada enquanto ouve as conversas de outras três mulheres. Todas vigiam as crianças que brincam. O narrador diz-nos que Sarah se esforça num sorriso de entendimento, de quem não ouve com atenção o que está a ser dito, nem quer. Até que um dia, regressa à pacatez do pequeno jardim de baloiços e risos infantis, um pai. Nesse dia, Sarah quebra a rotina das conversas quando faz o que nenhuma das outras mulheres tivera coragem para fazer - dirigir-lhe a palavra.
Brad, casado com uma mulher independente, preenche os seus dias a tomar conta do filho e a estudar para o exame da Ordem dos Advogados que já falhou por duas vezes. Sarah ainda não se encontrou como mãe e tem um marido ausente que se refugia no trabalho e pornografia na Internet. Entre os dois, desenvolve-se uma amizade que se serve dos filhos de ambos para tudo bem parecer aos olhos da sociedade. Solitários, os dois acabam por dar início a um romance secreto. Uma paixão proibida que leva Sarah a rever-se em Madame Bovary, livro que leu em adolescente e que só agora compreende. Madame Bovary, Sarah, ambas mulheres que querem escapar aos seus destinos.
Mas regressemos ao homem da fotografia. Visto como um monstro, descobrimos que é, no fundo, um ser infeliz, consciente das suas disfunções. Vive com a mãe idosa, a única que o ama e que sofre pelo filho. Sabe que não viverá para sempre e que Ronnie ficará sozinho, desprotegido a seu ver. Reconhecemos-lhe todo esse amor de mãe quando defende o filho contra Larry, o fundador da comissão de pais e responsável pelos cartazes. Homem também ele solitário, perseguido, sabemos mais tarde, pelos seus próprios fantasmas e segredos. Homem, ironicamente, desmascarado pela mãe de Ronnie. A mulher que tem o amor de mãe que Sarah ainda não descobriu.
Little Children é, por isso, um filme retrato, onde as personagens se cruzam de formas inesperadas, mas sem recorrer à lógica de puzzle (a meu ver, ainda bem). Uma obra que fala de redenção, de renúncia, de (re)descoberta e de aceitação. Do que somos, de quem somos, do que significamos, do que carregamos connosco, do que aprendemos.









