Falava num tom baixo, grave. Uma cicatriz no lábio tornou-se imagem de marca. Muitas são as histórias sobre a sua origem. Fumava muito e muito bebia. Outra das imagens de marca, dentro e fora do ecrã. Jogava golfe e gostava de xadrez. Citava Platão e conhecia milhares de frases de Shakespeare. Começou no teatro, onde chegou a ser qualificado como mau actor. Iria depois para o cinema, onde a sua imagem lhe valeu inúmeros papéis de vilão. Um amigo dos tempos de teatro valeu-lhe um contrato com um grande estúdio. Em troca, baptizou a filha com o nome do amigo. Casou quatro vezes. O último casamento foi o único feliz. Um conto de amor que ficaria escrito na história de Hollywood. E do cinema. Tudo começou quando um realizador quis criar uma personagem feminina ainda mais insolente. O resultado seriam quatro filmes e doze anos de casamento. Adorava navegar. O seu próprio barco apareceu num filme. Protestou contra a caça às bruxas da era McCarthy. Fundou o Rat Pack. Considerado uma das maiores estrelas de sempre. Tem um mito que não envelhece. Muitas vezes copiado. Outras homenageado. Ídolo de Bryan Ferry, marcou o álbum de estreia dos Roxy Music. Tem uma rua com o seu nome. Um estúdio mudou-lhe a data de nascimento. Tudo porque quem nasce no dia de Natal, não pode ser mau. Odiava funerais. Dizia que eram para quem ficava vivo. Morreu enquanto dormia. No seu caixão está um pequeno apito de ouro. Ali colocado pela sua mulher. Os cinéfilos sabem porquê.
14 janeiro 2007
13 janeiro 2007
Mode: Repeat #10
So he's retired
lives with his sister in a furnished flat
he's got this suit that
he'll never wear outside without a hat
his hair is white but he looks half his age
he looks like Jimmy Stewart in his younger days.
[Chorus]
Mr. Harris - Aimee Mann
11 janeiro 2007
Blondie, Angel Eyes e Tuco
"Sergio Leone com os seus grandes planos, spaguetti-made"... dizia eu, há uns dias, a propósito da minha descoberta pelo mundo dos Westerns. E o meu primeiro Leone foi, justamente, The Good, the Bad and the Ugly. Foi aqui que descobri os planos que nos dão todos os pormenores e emoções do rosto, os longos planos sem palavras, os homens rudes de reflexos rápidos e a importância das alcunhas. Tudo isto aliado a uma partitura emblemática e a uma forma de contar histórias presa nos pequenos detalhes e num peculiar sentido de humor.
The Good, the Bad and the Ugly é o último filme da trilogia dos dólares mas acaba por ser uma prequela dos filmes anteriores. É aqui que Blondie, interpretado por Clint Eastwood, ganha o seu característico poncho. Uma peça de vestuário essencial para constituir uma das mais famosas personas de Eastwood no cinema, complementada pelo charuto no canto da boca e por uma atitude impassível mas certeira. A história do filme conta-se numa frase - três homens em busca de um tesouro durante a Guerra Civil Americana - mas Leone transforma uma frase num épico visual. Cada plano é minuncioso e belo, porque nada é deixado ao acaso. No universo dos Westerns de Leone, onde tudo se rege pela violência, é complicado encontrar uma personagem com bons intuitos. Mesmo o "good" do título não é melhor do que os outros dois personagens, apenas na pontaria e inteligência.
Repleto de sequências memoráveis, The Good, the Bad and the Ugly é Leone Vintage. Um dos mais perfeitos exemplares de um tipo de Western que marcou uma mudança na história do Cinema.
09 janeiro 2007
Mode: Edit #28
Imagens de filmes e recordações cinéfilas.
08 janeiro 2007
Elogio
Estava na Cinemateca. Dirigi-me à casa-de-banho das senhoras e, quando entrei, ouvi este diálogo entre mãe e filha adolescente:
Filha: É tudo giro na Cinemateca!
Mãe: É.
Filha: Tudo giro! Até os candeeiros e as torneiras...
Quando estava quase a chegar à porta, ouço ainda:
Filha: Viste? Até as miúdas são giras! É tudo giro na Cinemateca!
Foi o elogio mais engraçado e indirecto que já ouvi.
05 janeiro 2007
Westerns
Não gostava de Westerns. Era um género que não me cativava, talvez por estar sempre do lado dos índios. Não conhecia então as amizades, os códigos, os mitos. Apenas evitava o género. Até que um dia, um amigo me colocou nas mãos Rio Bravo, de Howard Hawks. É certo que ali não há índios, mas tudo o resto existe. E esse tudo levou-me ao mundo dos Westerns. Vieram The Searchers, The Man Who Shot Liberty Valance, The Man from Laramie, Red River. E depois veio até Sam Peckinpah e a sua wild bunch e Sergio Leone com os seus grandes planos, spaguetti-made. E tantos outros.
O ciclo de Janeiro na Cinemateca é, justamente, dedicado à América dos Westerns. O primeiro filme a ser mostrado foi Stagecoach, de John Ford e do ano dessa rica casta de 1939 que nos trouxe, entre outros, The Wizard of Oz, Only Angels Have Wings, Mr. Smith Goes to Washington, Gone with the Wind ou Ninotchka.
Stagecoach é o regresso de John Ford ao Western numa época em que o género ainda não tinha conquistado o público. Tanto que tentaram dissuadir o realizador de criar o filme e, assim, de criar também um marco e um modelo para todos os Westerns que se seguiriam. Foi também aqui que um actor de B-movies se tornou uma estrela, de um momento para o outro – John Wayne. Ironicamente, esta rising star iria ficar muito magoada com o nascimento de outra estrela que lhe roubou protagonismo, nove anos depois, em Red River.
John Ford concentra em Stagecoach um microcosmos de personagens. Todos, naquela caravana, querem chegar a Lordsburg, mas cada um tem o seu motivo. O filme, que se divide entre o interior da caravana e o majestoso Monument Valley, é um olhar sobre a sociedade, o preconceito e a fragilidade desse pré-conceito.
É notável observar a forma como o realizador subverte os olhares e as aparências de personagens marcadas desde o início da viagem. É notável ver Lucy Mallory, arrogante esposa de um oficial, a engolir o orgulho quando necessita de Dallas, prostituta expulsa da cidade pela liga de honra, e de Doc Boone, o médico sempre bêbado que entra na caravana porque já não pode pagar o aluguer do quarto. É notável ver Dallas a recuperar a sua dignidade quando descobre o amor de um jovem pistoleiro, Ringo Kid, que fugiu da prisão para vingar o irmão e o pai. É notável também ver Hatfield, jogador veterano sem escrúpulos a tornar-se num perfeito cavalheiro. E mais notável ainda é a total inversão de aparências, quando, no final, é revelada a hipocrisia do único senhor que entrou na caravana, mas o único também que não saiu como tal.
E depois há todo um Cinema, com C grande, que culmina num nunca antes visto ataque de índios Apache à caravana e num duelo final em suprema elipse. Stagecoach é Cinema em estado puro. Mas continuo a ter pena dos índios.
02 janeiro 2007
Cinema 2006
Aqui estão os filmes de que mais gostei em 2006:
01. The New World (Terrence Malick)
02. The Departed (Martin Scorsese)
03. Munich (Steven Spielberg)
04. Volver (Pedro Almodóvar)
05. Match Point (Woody Allen)
06. Little Miss Sunshine (Jonathan Dayton, Valerie Faris)
07. Good Night, and Good Luck. (George Clooney)
08. A History of Violence (David Cronenberg)
09. Lady in the Water (M. Night Shyamalan)
10. Paradise Now (Hany Abu-Assad)
A desilusão:
The Prestige (Christopher Nolan)
Alguns que provavelmente estariam na lista se os já tivesse visto:
Babel (Alejandro González Iñárritu), Le temps qui reste (François Ozon), Caché (Michael Haneke), The Three Burials of Melquiades Estrada (Tommy Lee Jones), Nobody Knows (Hirokazu Koreeda), Les amants réguliers (Philippe Garrel), The Wind That Shakes the Barley (Ken Loach), La science des rêves (Michel Gondry), The Proposition (John Hillcoat), Jarhead (Sam Mendes) e Me and You and Everyone We Know (Miranda July).
01 janeiro 2007
Cinemateca 01/07
Todos os meses, sem excepção, sublinho no programa da Cinemateca Portuguesa os filmes que pretendo ir ver.
Todos os meses, sem excepção, acabo por só ir ver um ou dois... ou mesmo nenhum.
Alguns sublinhados de Janeiro:
Dia 03 - 15h30 - STAGECOACH de John Ford
Dia 04 - 15h30 - THE UNFORGIVEN de Clint Eastwood
Dia 08 - 19h00 - BUNNY LAKE IS MISSING de Otto Preminger
Dia 10 - 21h30 - IL BUONO, IL BRUTO, IL CATTIVO de Sergio Leone
Dia 11 - 15h30 - THE WILD BUNCH de Sam Peckinpah
Dia 13 - 19h00 - THE LADY EVE de Preston Sturges
Dia 18 - 15h30 - I SHOT JESSE JAMES de Samuel Fueller
Dia 22 - 19h00 - THE THIEF OF BAGDAD de Michael Powell
Dia 26 - 15h30 - RIO BRAVO de Howard Hawks
Dia 26 - 21h30 - SUNRISE de F.W. Murnau
Balanço Dezembro - 4 (Il Mare de Lee Hyun-seung, Le déjeuner sur l'herbe de Jean Renoir, The 13th Letter de Otto Preminger, The Lady Vanishes de Alfred Hitchcock)









