As estrelas-do-mar são as mãos que constatam que o barco se afundou.
Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.
Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.
Debaixo do aguaceiro correm pelo asfalto os fogos-fátuos da chuva.
É na maneira de esmagar a beata no cinzeiro que se reconhecem as mulheres cruéis.
Mexia nas chaves dentro do bolso para chegar mais depressa a casa.
Os parênteses caem das pestanas dos escritores.
As violetas são actrizes retiradas no Outono da vida.
Reminiscência: ruminar recordações.
Há no ver chover copiosamente uma volúpia de mortos que ainda estão vivos.
Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.
O chapéu que voa parece que fugiu com todas as ideias daquele que lhe corre atrás.
Há céus sujos em que parece que todos os aguarelistas do mundo limparam os pincéis.
A lua é um banco de metáforas arruinado.
As crianças que serão homens previdentes são as que afiam as duas pontas do lápis.
Quando nos chegamos à janela do comboio em movimento, roubamos adeuses que não eram para nós.
Idem é uma palavra de poupança.
Só o poeta tem relógio de lua.
Veludo de silêncio.
Quando tiramos um livro de uma estante, os outros metem-se pelo buraco vazio como se não quisessem deixá-lo entrar de novo.
* "Humor + Metáfora = Greguería"
Greguerías - Ramón Gómez de la Serna





