"Capítulo 1.
«Ele adorava Nova Iorque. Idealizava-a despropocionalmente.» Não, é melhor «romantizava-a despropocionalmente.» Para ele, fosse qual fosse a estação, era sempre a cidade que existia a preto e branco e que pulsava com a magnífica música de George Gershwin.
Não, vou voltar ao princípio.
Capítulo 1.
«Ele era excessivamente romântico em relação a Manhattan, como em relação a tudo o resto. O alvoroço das multidões e do tráfego era o seu meio ideal. Para ele, Nova Iorque era mulheres bonitas e malandros de rua com a escola toda.»
Não. Banal demais para o meu gosto. Tenho de pôr isto mais profundo.
Capítulo 1.
«Ele adorava Nova Iorque. Para ele, era uma metáfora do declínio da cultura contemporânea. A mesma falta de integridade individual que levava muitas pessoas a escolher a saída mais fácil estava a transformar rapidamente a cidade dos seus sonhos...»
Muito moralista. E, francamente, eu quero ganhar algum dinheiro com isto.
Capítulo 1.
«Ele adorava Nova Iorque embora, para ele, fosse uma metáfora do declínio da cultura contemporânea. Que difícil era existir numa sociedade dessensibilizada pela droga, a música agressiva, a televisão, o crime, o lixo!»
Demasiado indignado. Não quero parecer indignado.
Capítulo 1.
«Ele era tão duro e romântico como a cidade que amava. Por trás dos óculos de aros pretos havia a intensa pulsão sexual do gato selvagem.»
Esta, adoro.
Nova Iorque era a sua cidade, e sê-lo-ia sempre!"
Manhattan - Woody Allen (1979)
29 dezembro 2004
Manhattan
Memórias
Uma vida em redor de outras, em prol de outras. Como dizia Alfredo em Cinema Paraíso (1988, Giuseppe Tornatore), "Quando ouvimos daqui, o cinema está cheio, que estão a divertir-se, também ficamos contentes. Dá-nos prazer que as pessoas riam. É como se nós as fizéssemos rir... e as fizéssemos esquecer as suas desgraças".
Na sua casa em Alto dos Gaios, no Estoril, vêm-se, aqui e ali, objectos relacionados com o cinema. Desde cassetes, livros, até inúmeros cartazes, passando por bobines de fitas antigas. São fragmentos de cinema que compõem as recordações de um amante de cinema.
Aos 74 anos, a memória já atraiçoa Renato Viegas. À idade, junta-se o peso das recordações de uma vida dedicada à sétima arte. Nasceu no Bombarral, distrito de Leiria, a 27 de Janeiro de 1929, e desde cedo enveredou nas lides cinematográficas, "Eu fui sempre de cinema", diz confiante. Desde novo, passava as noites no cinema da terra e tornou-se ajudante de projeccionista. "Era um trabalho perigoso! Aquelas fitas que se incendiavam eram um rastilho autêntico!"Antes de se tornar um projeccionista, fez de tudo um pouco: vender copos de água, indicar lugares ou vender os bilhetes. Enfim, tudo o que o pudesse manter próximo do cinema.
A MEMÓRIA DE UM CINEMA
Na década de 50, Renato Viegas não parava num lugar por muito tempo. Como projeccionista percorreu o país inteiro a levar o cinema a todas as localidades possíveis. "Andei com o cinema correndo o país, em todos os sítios onde se podia dar o cinema".
Quando se chegava a uma terra, escolhia-se o local, normalmente uma Casa do Povo, e começava-se a organizar o serão dessa noite. Nas localidades sem electricidade, levava-se uma grande lâmpada que funcionava através de um gerador eléctrico à manivela, "Uma vez um [homem] virou-se e disse que a lâmpada era uma cabaça, daquelas para levar o vinho!", diz sorridente.
As recordações começam então a surgir. São muitas as histórias e as personagens que atravessam a vida de Renato Viegas. Misturado com o sorriso, vem um suspiro. "Lembro-me de uma vez um senhor começar a dizer aos amigos que tinha um gerador igual e que sabia como se desligava. E desligou-o mesmo. Como é claro, gerou-se a confusão com tudo às escuras". Antes da exibição do filme, colocava sempre um disco numa espécie de grafonola que também trabalhava à manivela. As pessoas, pouco habituadas a este tipo de modernices, perguntavam onde estava o artista.
Renato Viegas tem saudades da vida que levou. Nas suas próprias palavras, admite que foi uma vida cheia e sem grandes preocupações, "A única preocupação que tinha era se não aparecesse ninguém e isso [por vezes] aconteceu!". No entanto, era raro não aparecer ninguém. O cinema era considerado uma festa e todos iam assistir às fitas, levando as suas próprias cadeiras e até uma merendinha.
Nunca teve grandes problemas com a censura, embora o Estado Novo não fosse brando com o cinema. O corte e o controlo de títulos e cenas já fazia parte do quotidiano de pessoas como Renato Viegas. Começa a rir-se e lembra-se de mais umas histórias, "Havia uns títulos complicados...".
Os anos passam e, no início da década de 60, Renato Viegas vem para Lisboa. Nesta altura, entra para a Lusomundo, onde trabalha durante cinco anos. Deste emprego, como chefe de programação da Lusomundo, guarda a recordação de um velho amigo, Lauro António [o realizador], "temos, aliás, o mesmo tipo de inglês", confessa.
Quando saiu da Lusomundo, foi para a Intercine, na altura a empresa responsável pela gestão dos cinemas em Portugal. Mais uma vez como chefe de programação, Renato Viegas via os filmes que, na altura, vinham "virgens", sem qualquer informação sobre o tempo de duração. Além disso, tinha a seu cargo a escolha dos filmes a ser exibidos e dos ciclos a realizar.
Durante estes anos, participou também no Festival de Cinema de Setúbal, o Festróia. Mais tarde passou pelos cinemas Quarteto e Oxford, em Cascais, sempre como chefe de programação.
O CINEMA NÃO É O MESMO
Em 1993, no dia em que fez 65 anos, reformou-se. Admite as saudades do cinema, mas também sabe que agora o cinema já não é o mesmo. Aliás, hoje em dia, já não vai muito ao cinema, "as coisas são muito diferentes agora", diz com alguma tristeza. "Antigamente ir ao cinema era uma festa, uma forma de convívio e de encontrar os amigos. Agora não: não se conversa, entra-se ali dentro, sai-se e pronto". Este é um desgosto, mas existem outros, como o facto de nenhum dos dois filhos ter seguido as suas passadas.
Uma simples pergunta torna-se muito complicada de responder quando se é cinéfilo: "Qual é o seu filme preferido?" Depois de colocada, começa uma enumeração, os nomes dos filmes vão surgindo: "Oh! São tantos os filmes que gosto!", esclarece Renato Viegas, "Sei lá... O Padrinho, A Túnica, Ben-Hur, E Tudo o Vento Levou... os grandes clássicos, no fundo!".
Depois vêm novas histórias, como quando saía do trabalho, na Intercine, às 18h, e seguia a pé para o Cais do Sodré. No caminho passava pelo Tivoli, onde estava a ser exibido Música no Coração e, quase todos os dias, não resistia a espreitar um bocadinho.
O discurso volta a ser interrompido com a lembrança dos grandes filmes de Alfred Hitchcock. Depois de tantas histórias, a memória também já desenferrujou um pouco. Outro suspiro. E agora o silêncio, porque as luzes já estão apagadas e o filme vai começar.
28 dezembro 2004
Seinfeld
David Hume Kennerly resolveu ver o último dia de filmagens da série Seinfeld com outros olhos.
Nas suas próprias palavras: ""I photograph history for a living. That's been my profession for over thirty years. I've documented...some of the biggest events of my generation. When I heard that Seinfeld was ending, I knew I had to be there!
I then suggested the idea of shooting an in-depth, behind-the-scenes photographic essay of the final days of Seinfeld to Newsweek magazine, but I met with some skepticism. Everyone was clamoring for pictures of this big television event, but nobody was going to get inside.
I decided to go directly to the source, so I sent Jerry Seinfeld a copy of my book Photo Op, a volume of photographs I had taken over a twenty-five year period. To offset the wars and disasters it contained, I included a funny picture that I had taken of Hillary Clinton wincing. Underneath the photo I jokingly wrote, "No more Seinfeld?" I explained to Jerry that I would shoot the finale from a historical perspective. Jerry liked my approach and invited me along for the last ride. It was quite a trip.
I photographed the final days of Seinfeld the same way I would a big political story. The elements were similar - famous personalities doing something extremely difficult under tremendous stress and intense public scrutiny. My challenge has always been to show the human side of people. I tried to capture a sense of what they were thinking and feeling as they won or lost an election, signed a pardon, sent men and women into battle, or in this case, gathered for the last time to finish a long-running hit series.
America watched Seinfeld for nine years. Fans knew all about Jerry, George, Elaine, and Kramer, but what about the real Jerry, Jason, Julia, and Michael? How did they feel about walking out of Jerry's living room set for the last time? Did they really like one another or was there tension on the set? Pictures, in this case anyway, do help tell the story, particularly when accompanied by the insightful comments by those who lived through it. (...)"
O resto do texto e as fotografias neste site.
Para os fãs da série, outro link útil que contem os scrips de todos os episódios.
Um fã mais aplicado: http://www.stanthecaddy.com/.
BD Blues
A estreia de Bad Santa de Terry Zwigoff, que ainda não tive oportunidade de ir ver, fez-me recordar uma das maiores surpresas cinematográficas de 2002 - Ghost World.
Ghost World – Mundo Fantasma é, antes de mais, uma excelente banda desenhada underground criada por Daniel Clowes. Em tons de um melancólico azul, o autor retrata a vida de duas adolescentes e a relação que elas estabelecem com o mundo à sua volta.
O argumento do filme, escrito pelo próprio Daniel Clowes e pelo realizador Terry Zwigoff transporta todo esse universo para a tela. Um universo repleto de personagens marginais e de um sentido de humor estranho, irónico e cínico.
Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) são duas amigas que acabaram o liceu e que agora se vêm confrontadas com uma nova vida, à qual não sabem dar um rumo certo. Assim, passam os dias a passear pelos subúrbios da cidade, sem nada para fazer. Quando confrontadas com o mundo “real”, Enid e Rebecca enfrentam-no de forma diferente, o que acaba por as distanciar uma da outra. Rebecca, por um lado, é mais responsável e Enid, a original, a diferente, é a que quer alcançar mais na vida do que um emprego atrás de balcão, mas que não faz nada para o conseguir.
O filme é, no fundo como uma fábula angustiante, povoada de personagens diferentes. Desde o solteirão e inadaptado Seymor (Steve Buscemi), até ao próprio pai de Enid, um divorciado tonto e ridículo. Depois há o empregado de balcão Weird Al, a professora de arte de Enid e, é claro, a personagem que nos dá um dos momentos mais bonitos do filme, o velhote que espera todos os dias por um autocarro que já não existe.
Ghost World é a história destes personagens. Pessoas sem capacidade de adaptação. Pessoas que se refugiam nos seus próprios mundos, como Seymor e os seus discos de 78 rotações, ou como a Enid, que tenta ao máximo demarcar a sua diferença, acabando por não saber lidar muito bem com a solidão que essa diferença lhe traz. São personagens desajustadas, que se fecham em universos próprios, acabando por não se saber relacionar com os outros. Numa sociedade contemporânea, massificada e sem rosto, estes seres à margem são como fantasmas desencantados que deambulam e que acabam por perder ligações, ficando presos à sua própria melancolia e desespero.
Os Inadaptados
O principal problema com a expressão "filme de culto" é o facto de, hoje em dia, qualquer filme minimamente diferente ser logo catalogado como sendo de "culto". Ser "filme de culto" é mais uma manobra de marketing do que outra coisa. Para mim, culto nada tem a ver com marketing, tem a ver com fascínio, com a singularidade de um filme que, por uma razão ou por outra, vai ganhando uma aura à sua volta. É o caso do grande flop One From the Heart de Francis ford Coppola ou do filme Os Inadaptados de John Huston.
Os Inadaptados, por exemplo, é um filme de que já ouvia falar há muitos anos e só recentemente vi. Não sei se conhecem o enredo do filme, mas um possível resumo da história não ilustra o culto que se criou em torno deste filme. Os Inadaptados é um filme mítico. E são poucos aqueles filmes que, após tantos anos, conservam uma aura assim.
Desde logo, o facto de ser uma história escrita por um dos grandes dramaturgos do século, Arthur Miller. O escritor quis, desta forma, dar um papel dramático à sua esposa Marilyn que, durante muitos anos, se sentiu pouco valorizada como actriz. Acabaria por encontrar em Roselyn uma personagem de forte carga dramática, construindo uma das melhores interpretações da sua carreira. Além de Marilyn, todo o elenco era de estrelas, destacando-se Clark Gable e Montgomery Clift.
Em Hollywood, há 40 anos, estas eram das maiores estrelas e o fascínio sobre elas era enorme. O próprio argumento de Arthur Miller organiza-se como uma parábola de profunda mágoa poética sobre um tempo que termina: os cavalos selvagens do deserto são como os derradeiros e irrecuperáveis heróis de uma época de glória. Os problemas que marcaram as rodagens contribuíram também para a imagem de filme maldito.
A rodagem foi de uma grande exigência, pois a maioria das cenas era filmada em exteriores, em pleno deserto do Nevada, com temperaturas muito elevadas, o que acabou por atrasar as filmagens. O destino trágico das suas estrelas logo após a rodagem do filme, ou seja, a morte dos seus próprios «inadaptados» também contribuiu para envolver este filme numa aura de culto.
As filmagens acabaram a 4 de Novembro de 1960 e 12 dias depois, Clark Gable morreu na sequência de uma crise cardíaca. A 5 de Agosto de 1962, morreria Marilyn Monroe, em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas e, em 1966, desaparecia Montgomery Clift, vitimado por um ataque cardíaco.
Um outro factor para o crescimento da aura... ou do culto, são as fotos da Magnum nas rodagens de Os Inadaptados: o lado estético, pois são todas elas fabulosas imagens dos melhores fotógrafos da agência (Cornell Capa, Eve Arnold, Henri Cartier-Bresson, Bruce Davinson, Elliott Erwitt, Ernst Haas, Erich Hartmann, Inge Morath e Dennis Stock); o lado do star-system, com estrelas que já não existem nos dias de hoje e reflexo de um Hollywood, cujo glamour mais brilhante se perdeu por volta desta altura; e o lado de uma aura um pouco mórbida, de um filme maldito, com a morte algo precoce das suas estrelas.
Se quiserem ver as fotos podem consultar este site... um dos mais completos que encontrei.
O sonhador
"Sentimos que, por fim, essa inesgotável fantasia se fatiga, se esgota numa perpétua tensão, porque amadurecemos e superamos os nossos ideais antigos, os quais se desfazem em pó e se desmoronam e, se não existe outra vida, é preciso construí-la mesmo com essas ruínas (...). É pois, em vão que o sonhador procura entre as cinzas dos seus velhos devaneios pelo menos qualquer cintilação para lhe soprar em cima e aquecer com um fogo novo o seu coração arrefecido."
Noites Brancas - Dostoievski
One
Primeiro blue destas páginas.
Com o tempo outros serão aqui deixados, até porque "One is the loneliest number..."




