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09 fevereiro 2005

M

"They all say I am dark and pessimistic. Some of my pictures show dark things about men and life, of course. Some of the later ones maybe even are a bit pessimistic. However, I think that all my pictures are portraits of the time in which they were made...I always made films about charecters who struggled and fought against the circumstances and the traps they found themselves in. I don´t think that is pessimistic."

Fritz Lang


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O filme de 1931, M, realizado por Fritz Lang, foi baseado num caso verdadeiro. O realizador, numa entrevista a Peter Bogdanovich, explicou como surgiu a ideia: "I discussed with my wife, Mrs. Von Harbou, what was the ugliest, most utterly loathsome crime and we thought at first it was the sending of anonymous letters (...). But then we both decided that the most horrible crime was that of a child murderer. I had many friends in Berlin's Homicide Department (...) and through them I came in touch with various murderers. Kurten, the infamous killer of Dusserlorf, I never met."

No filme há uma cidade (Dusseldorf) que, há vários meses, é aterrorizada por um assassino de crianças. A polícia tenta, em vão, capturá-lo por diversos meios. No percurso dessas tentativas de captura acaba por "incomodar" outros criminosos que têm os seus negócios em bares, e que se sentem prejudicados, já que as constantes rusgas policiais aos seus estabelecimentos afastam os clientes. Desta forma, iniciam também eles uma caça ao homem, acabando por conseguir capturá-lo. No fim, levam-no até uma cave onde o espera uma multidão furiosa e ansiosa por fazer justiça pelos seus próprios meios. No entanto, o assassino acaba por ser salvo pela chegada da polícia ao local.

O objectivo de Fritz Lang com este filme era abordar novas temáticas na sua filmografia. O realizador precisava de novos desafios e decidiu fazer um filme mais profundo, acabando por se embrenhar numa história de contornos negros e claustrofóbicos. Muitos viram neste filme o retrato de uma época - a decomposição da sociedade germânica na Alemanha pré-Hitler. A figura do monstro, quase patética, de aparência tão inofensiva e olhos esbugalhados, foi interpretada como símbolo do então ascendente nazismo - prenúncio das atrocidades que alguns anos mais tarde seriam cometidas nos campos de concentração. Para esta associação contribuiu o facto de o título original do filme, Os Assassinos estão Entre Nós (Morder Unter Uns) ter sido modificado para M após a pressão que foi feita nesse sentido, pois temia-se que o título fosse considerado pelos nazis como uma alusão directa ao seu regime.

Hoje, no entanto, é difícil ver em M qualquer alusão política ou profética desse género. O filme mostra-nos antes uma aguda sátira social, em que Fritz Lang explora, com subtil ironia, os efeitos do pânico colectivo. Simultaneamente perseguido pela polícia e por criminosos organizados, que o perseguem por se sentirem prejudicadas nos seus negócios, o assassino não passa de um pobre doente mental, vitima da sociedade. Dominado por uma incontrolável compulsão homicida, ele não pode deixar de matar, ao contrário de seus perseguidores, os mendigos e criminosos profissionais, que poderiam deixar de fazê-lo, se quisessem realmente trabalhar. O sarcasmo atinge o clímax na extraordinária sequência do fim em que o próprio princípio da justiça é colocado em causa.

O tema forte deste filme é a crítica social. Aliás, o próprio realizador sempre elegeu como os seus filmes preferidos aqueles que abordavam esta temática, como M ou Fury (1936). Para Fritz Lang, a "crítica social" era uma crítica do mundo social nas suas leis e nas suas convenções, uma crítica a um sistema e à própria civilização. A perseguição ou "caça ao homem" que é feita neste filme e, mais tarde, retomada em outros filmes do realizador, acaba por ter um efeito surpresa. Ou seja, partimos de um sentimento de compreensão pela dor dos familiares das vítimas para um sentimento de pena por aquele homem gorducho de olhos grandes. O assassino, quando perseguido, acaba por se tornar ele próprio uma vítima. Essa sensação começa com o assassino a olhar para o seu reflexo numa montra, olhando para si próprio, e termina na sequência final, durante o seu discurso. Nesse discurso, a personagem de Peter Lorre faz a sua confissão, mas é uma confissão que nos confunde, que inverte as regras do jogo porque o temível psicopata revela-se então como uma vítima, um doente mental com uma personalidade complexa. Assim, o que começava por ser um filme sobre um crime terrível, acaba também por ser um estudo sobre um assassino patológico e um olhar para dentro da sociedade e dos seus sistemas.

Por fim, um aspecto interessante a realçar neste filme é também o facto de não existir uma história de amor, ao contrário da maioria dos filmes de Fritz Lang. No entanto, este facto parecia provocar um certo orgulho ao realizador, como se pode constatar neste excerto da sua entrevista a Peter Bogdanovich, "Tell me, why should a story about a child murderer hurt anybody's feelings? There's no love story, I grant you (...)" .

M é um marco na história do cinema, um dos primeiros filmes sonoros que soube usufruir dessa nova técnica de uma forma tão perfeita, que tirando os sons essenciais já referidos, é um filme, de resto, extremamente silencioso. Na época do surgimento das palavras e da euforia do cinema sonoro, Fritz Lang soube conter-se e dar-nos o som mais forte – o silêncio. Ou como diria João Bénard da Costa na sua própria análise a este filme, "Tudo reside num assobio e numa dança. Ou seja, no cinema."

03 fevereiro 2005

Only Angels Have Wings

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Tudo indica que este pode ser o ano da consagração de Martin Scorsese. No entanto, se ele realmente ganhar, vai ser mais um disfarçar do embaraço de nunca terem dado uma estatueta a este grande cineasta do que pelo filme em si. Scorsese já mereceu mais o oscar, por várias vezes, do que pelo The Aviator.

The Aviator é um épico biográfico que retrata a vida do magnata Howard Hughes, um milionário excêntrico, apaixonado por aviões, cinema e belas mulheres. O filme acompanha a vida de Hughes dos final dos anos 20 aos anos 40, altura em que desenhou e construiu aviões, produziu e realizou filmes, bateu recordes, se relacionou com actrizes míticas, como Ava Gardner e Katherine Hepburn.

Scorsese reconta esta vida cheia de extravagâncias e paixão, num filme que, apesar de tudo, não me cativou. O Gangs de Nova Iorque, para pegar num filme recente do realizador, pode não ser perfeito, mas transpira sentimentos. Este The Aviator é um filme "frio". É a biografia de um homem apaixonado e extravagante, mas é também a história de um homem cheio de fobias e um comportamento obsessivo, só que o filme acaba e eu fiquei com a sensação de que aquela personagem nunca me cativou realmente. Pode ser uma personagem difícil, é um facto, mas com uma vida tão rica e intensa, não sei o que faltou.

No entanto, não estranho os prémios e nomeações que o filme tem recebido. O filme tem todas as características de um clássico por ser uma história repleta de mitologia americana. Leonardo di Caprio cumpre, mas talvez seja por causa dele que a personagem não me cativou. O meu destaque vai para a fabulosa interpretação de Cate Blanchet. É incrível a "sua" Katherine Hepburn - todos os maneirismos, expressão corporal e forma de falar estão lá, mas sem se tornar uma caricatura. Uma pessoa fecha os olhos e parece que está a ouvir a Katherine Hepburn original.

27 janeiro 2005

Les Amants du Pont Neuf

"Quelqu' un vous aime.
Si vous aimez quelqu' un, vous lui dit demain
«Le ciel est blanc».

Si c' est moi je réport
«Mais les nuages sont noires».

On saura comme ça qu' on s' aime".

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Do realizador maldito Leos Carax. É um filme indefinível, com uma magia visual tanto inquietante como comovente. É a história de um amor surreal, um poema sobre o intangível de dois seres diferentes. Alguém já viu?

Les Amants du Pont Neuf (1991) - Leos Carax

21 janeiro 2005

Closer

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Fui ver ontem o filme, dia de estreia. Enquanto escrevo, ouço também a música do Damien Rice que dá início ao filme. Chego à conclusão que se o filme fosse apenas os primeiros 5 minutos, já teria valido a pena...

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

The Blower's Daughter - Damien Rice

03 janeiro 2005

Cinema 2004

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Os 10 melhores filmes que vi ao longo de 2004:

01. Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Michel Gondry)
02. Lost in Translation (Sofia Coppola)
03. Before Sunset (Richard Linklater)
04. The Village (M. Night Shyamalan)
05. Kill Bill: Vol. 2 (Quentin Tarantino)
06. Anything Else (Woody Allen)
07. Big Fish (Tim Burton)
08. The Terminal (Steven Spielberg)
09. Colateral (Michael Mann)
10. 21 Grams (Alejandro González Iñárritu)

A desilusão:

La Mala Educación (Pedro Almodóvar)

Alguns que provavelmente estariam na lista se os já tivesse visto:

Infernal Affairs (Wai-keung Lau, Siu Fai Mak), The Station Agent (Thomas McCarthy), La meglio gioventù (Marco Tullio Giordana), The Dreamers (Bernardo Bertolucci), Spring, Summer, Fall, Winter... and Spring (Kim Ki-duk), Comme une image (Agnès Jaoui), The Door in the Floor (Tod Williams) e 5x2 (François Ozon).

30 dezembro 2004

Second [star] to the right

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"When the first baby laughed for the first time, the laugh broke into a thousand pieces, and they all went skipping about. And that was the beginning of fairies."

Hoje vi J.M. Barrie no cinema. O filme é Finding Neverland e conta-nos como o escritor descobriu a inspiração para escrever a sua história mais famosa.

Peter Pan sempre foi das minhas histórias favoritas de infância, ao lado de Alice no País das Maravilhas ou O Feiticeiro de Oz. Tanto que tenho dezenas de livros, todos do Peter Pan, em várias línguas, de vários formatos e tamanhos, mas todos com a história de J.M. Barrie.

É uma história muito mais adulta do que as sucessivas adaptações nos fazem crer. Não é apenas a história de um menino que voa e que vive com piratas, sereias e meninos perdidos na Terra do Nunca. Mas também a história de um menino que não quer crescer, e quantos de nós não temos esse receio de envelhecer?

28 dezembro 2004

BD Blues

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A estreia de Bad Santa de Terry Zwigoff, que ainda não tive oportunidade de ir ver, fez-me recordar uma das maiores surpresas cinematográficas de 2002 - Ghost World.

Ghost World – Mundo Fantasma é, antes de mais, uma excelente banda desenhada underground criada por Daniel Clowes. Em tons de um melancólico azul, o autor retrata a vida de duas adolescentes e a relação que elas estabelecem com o mundo à sua volta.
O argumento do filme, escrito pelo próprio Daniel Clowes e pelo realizador Terry Zwigoff transporta todo esse universo para a tela. Um universo repleto de personagens marginais e de um sentido de humor estranho, irónico e cínico.

Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) são duas amigas que acabaram o liceu e que agora se vêm confrontadas com uma nova vida, à qual não sabem dar um rumo certo. Assim, passam os dias a passear pelos subúrbios da cidade, sem nada para fazer. Quando confrontadas com o mundo “real”, Enid e Rebecca enfrentam-no de forma diferente, o que acaba por as distanciar uma da outra. Rebecca, por um lado, é mais responsável e Enid, a original, a diferente, é a que quer alcançar mais na vida do que um emprego atrás de balcão, mas que não faz nada para o conseguir.

O filme é, no fundo como uma fábula angustiante, povoada de personagens diferentes. Desde o solteirão e inadaptado Seymor (Steve Buscemi), até ao próprio pai de Enid, um divorciado tonto e ridículo. Depois há o empregado de balcão Weird Al, a professora de arte de Enid e, é claro, a personagem que nos dá um dos momentos mais bonitos do filme, o velhote que espera todos os dias por um autocarro que já não existe.

Ghost World é a história destes personagens. Pessoas sem capacidade de adaptação. Pessoas que se refugiam nos seus próprios mundos, como Seymor e os seus discos de 78 rotações, ou como a Enid, que tenta ao máximo demarcar a sua diferença, acabando por não saber lidar muito bem com a solidão que essa diferença lhe traz. São personagens desajustadas, que se fecham em universos próprios, acabando por não se saber relacionar com os outros. Numa sociedade contemporânea, massificada e sem rosto, estes seres à margem são como fantasmas desencantados que deambulam e que acabam por perder ligações, ficando presos à sua própria melancolia e desespero.

Os Inadaptados

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O principal problema com a expressão "filme de culto" é o facto de, hoje em dia, qualquer filme minimamente diferente ser logo catalogado como sendo de "culto". Ser "filme de culto" é mais uma manobra de marketing do que outra coisa. Para mim, culto nada tem a ver com marketing, tem a ver com fascínio, com a singularidade de um filme que, por uma razão ou por outra, vai ganhando uma aura à sua volta. É o caso do grande flop One From the Heart de Francis ford Coppola ou do filme Os Inadaptados de John Huston.

Os Inadaptados, por exemplo, é um filme de que já ouvia falar há muitos anos e só recentemente vi. Não sei se conhecem o enredo do filme, mas um possível resumo da história não ilustra o culto que se criou em torno deste filme. Os Inadaptados é um filme mítico. E são poucos aqueles filmes que, após tantos anos, conservam uma aura assim.

Desde logo, o facto de ser uma história escrita por um dos grandes dramaturgos do século, Arthur Miller. O escritor quis, desta forma, dar um papel dramático à sua esposa Marilyn que, durante muitos anos, se sentiu pouco valorizada como actriz. Acabaria por encontrar em Roselyn uma personagem de forte carga dramática, construindo uma das melhores interpretações da sua carreira. Além de Marilyn, todo o elenco era de estrelas, destacando-se Clark Gable e Montgomery Clift.

Em Hollywood, há 40 anos, estas eram das maiores estrelas e o fascínio sobre elas era enorme. O próprio argumento de Arthur Miller organiza-se como uma parábola de profunda mágoa poética sobre um tempo que termina: os cavalos selvagens do deserto são como os derradeiros e irrecuperáveis heróis de uma época de glória. Os problemas que marcaram as rodagens contribuíram também para a imagem de filme maldito.

A rodagem foi de uma grande exigência, pois a maioria das cenas era filmada em exteriores, em pleno deserto do Nevada, com temperaturas muito elevadas, o que acabou por atrasar as filmagens. O destino trágico das suas estrelas logo após a rodagem do filme, ou seja, a morte dos seus próprios «inadaptados» também contribuiu para envolver este filme numa aura de culto.
As filmagens acabaram a 4 de Novembro de 1960 e 12 dias depois, Clark Gable morreu na sequência de uma crise cardíaca. A 5 de Agosto de 1962, morreria Marilyn Monroe, em circunstâncias que nunca foram totalmente esclarecidas e, em 1966, desaparecia Montgomery Clift, vitimado por um ataque cardíaco.

Um outro factor para o crescimento da aura... ou do culto, são as fotos da Magnum nas rodagens de Os Inadaptados: o lado estético, pois são todas elas fabulosas imagens dos melhores fotógrafos da agência (Cornell Capa, Eve Arnold, Henri Cartier-Bresson, Bruce Davinson, Elliott Erwitt, Ernst Haas, Erich Hartmann, Inge Morath e Dennis Stock); o lado do star-system, com estrelas que já não existem nos dias de hoje e reflexo de um Hollywood, cujo glamour mais brilhante se perdeu por volta desta altura; e o lado de uma aura um pouco mórbida, de um filme maldito, com a morte algo precoce das suas estrelas.

Se quiserem ver as fotos podem consultar este site... um dos mais completos que encontrei.