02 março 2009

Slumdog Millionaire

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Interessa-me pouco analisar narizes alheios, mas se Slumdog Millionaire pretendia ser uma fábula moderna numa Índia multicultural e plena de contradições, parece-me que o objectivo é falhado. Porque sob uma frágil capa de filme global e de denúncia social, a obra de Danny Boyle revela-se vulgar e pouco interessante. Uma obra que depressa perde o seu rumo, aliada a um argumento desenvolvido de forma mecânica e previsível.

Não crítico tanto as opções técnicas que Danny Boyle escolheu para contar Slumdog Millionaire. Se é verdade que a montagem e a forma como filma a Índia se tornam repetitivas e revelam opções meramente estéticas, considero mais grave a forma como (não) desenvolve as suas personagens. Porque se a história de um miúdo pobre que se torna milionário de um dia para o outro podia ser um belo conto de amor e fé, na realidade estamos perante um filme que descura o conteúdo pela forma, marcado por ideias superficiais e estereótipos. Quanto à falta de verosimilhança de muitos aspectos do argumento, não me incomoda demasiado. Como costumo dizer, acredita quem quer. Neste caso, não quis acreditar.

9 comentários:

Nuno Gonçalves disse...

Concordo em absoluto. Esse conto de fadas potencialmente interessante e comovente perde logo qualquer hipótese de sublimação quando Boyle insiste em deixar as suas personagens serem nada mais que objectos ocos que fazem mover o enredo e não ao contrário. A própria química entre o par romântico é inexistente.

E sem querer bater mais no... "pobrezinho", acho um pouco insultuosa a forma como o realizador explora do meio totalmente empobrecido que circunda as personagens em prol de uma exaltação de falso sentimentalismo, como que a dizer que "os pobrezinhos também têm sentimentos grandiosos". Se calhar estou a ir longe de mais. Se calhar não: é só lembrar a forma condescendente como se decide encerrar o filme, explicando o que deveríamos ter visto e sentido.

Álvaro Martins disse...

Apoiado Cláudia.
E Nuno, bate aí no pobrezinho que ele já não se aleija até porque ganhou oito óscares, já deve estar rico(ou não):)
Agora a sério, é isso, concordo com tudo, o Boyle vendeu-se a Hollywood e teve o seu prémio, o óscar.
Como é que um homem que faz o Trainspotting e o Sunshine faz uma lamechice sem coerência narrativa como este Slumdog? Há coisas que não me entram na cabeça, só resta a teoria de se ter vendido.

Cláudia disse...

Pensava que ia ser "atacada" pla crítica negativa, mas felizmente parece que a poeira já assentou um pouco!

Ursdens disse...

Subscrevo.

Cumprimentos cinéfilos!

Ricardo Lopes Moura disse...

Discordo no que há a discordar:

Danny Boyle é um cineasta coerente e as falhas que apontas estão em toda a sua obra. Não são falhas, são uma opção cénica.

Diz o Nuno que os personagens são ocos e fazem mover o enredo em vez do enredo os fazer mexer? Que incongruencia... então não são as pessoas que controlam a sua vida? então são elas que fazem mover o seu próprio enredo e não o enredo que as faz mover a elas. Ocas seriam se o enredo as fizesse mover a elas...

Também não sabíamos nada dos room mates de Shallow Grave, dos adolescentes de A Praia nem dos astronautas de Sunshine. O que importa é o que lhes acontece em cena.

Boyle fez um filme com poucos meios e com um aspecto espectacular. a história tem estereótipos e nem tudo se engole, mas so what? contou a sua história e apresentou-a em festivais. já não é culpa dele se começou a ganhar os prémios todos, para isso é culpar os juris.

vendeu-se a hollywood, diz um comentário anedótico. sim, um projecto filmado na índia com actores indianos anónimos deve ser o caminho ideal para se vender a hollywood...

Quando um intérprete diz que um filme falhou no seu objectivo, quem sabe não falhou ele na sua interpretação. Para mim, Boyle nunca teve uma preocupação de denúncia social porque pouco se podia estar borrifando para isso. Gostou de um livro e decidiu adaptá-lo. depois cada crítica vai juntando a sua colher e começa a bola de neve.

O filme está longe de ser uma obra prima e é demasiado programático - a cena da nota de 100 dólares ficou-me atravessada e nunca que a pergunta dos 20 milhões seria tão fácil como o nome do terceiro e mais conhecido mosqueteiro (até é nome de perfume) - mas o círculo completa-se e Bollywood é feito de melodramas. Há ali pobreza, crime e uma história de amor com final feliz. ou é bem ou mal contada, mas querer atribuir ao filme intenções fabulatórias de denúncia socio-políticas é pretensão a mais.

Danny Boyle filma o seu universo próprio, que pode ser uma casa de estudantes, uma ilha secreta ou a índia profunda. ele filma thrillers, mais nada.

Nuno Gonçalves disse...

De facto apanhaste o meu engano.
Queria efectivamente dizer:

"Boyle insiste em deixar as suas personagens serem nada mais que objectos ocos que se fazem mover pelo enredo e não ao contrário"

De qualquer forma essa singularidade da visão de um realizador não é infalível na sua defesa. Não é por revelar novamente falhas passadas que se torna desculpável. Ainda assim acho que Boyle deu aqui um salto numa direcção, contrária ou não ao seu restante trabalho, em que se torna quase impossível de regressar. Porque além de "programático" é simplista e redutor na própria revisão daquele mundo. Se essa é a visão dele... muito bem, que seja. Mas não deixa de ser deplorável.

Insano disse...

Titanic all over again...

Dizer que o filme explora a pobreza da Índia é ter uma ideia desfasada da realidade... porque o filme até foi "simpático", sem a frieza de "Cidade de Deus".

O resto.. são opiniões...

R. disse...

Não vi este filme. Dificilmente - leia-se: nem mesmo a reboque de um inqualificável par de pernas femininas - o irei ver.

Apesar disso, já li muito sobre este filme, nos mais variados meios, e pela forma como tem sido levado em ombros pela boca do "povinho" tem-me feito sempre recordar (com as limitações naturais da memória) uma frase do António Lobo Antunes,a propósito de best-sellers: "Se vendeu mais de 40.000 exemplares, é porque deve ser mau".

Cláudia disse...

Se não fosse por trabalho, teria esperado por uma sessão de dvd ou de sábado à tarde. Se antes do burburinho não tinha expectativas, as polémicas à volta do gosto/não gosto cansaram-me. Eu não gostei, e depois?