25 fevereiro 2009

Frost / Nixon

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Em 1977, Richard Nixon era um homem exilado. Na memória de todos os americanos estava ainda a guerra do Vietname, o escândalo Watergate e a recordação da primeira vez que um Presidente se demitira do cargo. Cicatrizes numa sociedade em convulsão agravadas pelo facto de Richard Nixon ter sido perdoado pelo presidente Gerald Ford e nunca ter respondido perante a justiça. Nesta altura, três anos depois da demissão, Nixon escrevia as suas memórias e procurava uma redenção. É neste contexto que o apresentador britânico de talk-shows, David Frost, tem a ideia de contactar o antigo presidente para uma série de entrevistas.

Apesar da pouca credibilidade que atribuía a David Frost, Richard Nixon aceitou, a troco de muitos dólares, fazer essa série de entrevistas exclusivas. Os próprios colegas de profissão de Frost não o levaram a sério, pois nenhuma cadeia de televisão quis comprar as entrevistas que David Frost acabaria por pagar do próprio bolso. Quando finalmente chegou o dia da primeira entrevista, depois de várias semanas de investigação, tornou-se claro que seria complicado chegar ao pedido de desculpas tão ansiado pelo povo americano. O experiente político moldava as respostas e controlava o tempo disponível, deixando Frost sem reacção. Até que chegou o último dia de entrevistas, sobre o caso Watergate.

Frost/Nixon inspira-se nas verdadeiras entrevistas que se tornaram as mais vistas de sempre no mundo da televisão. Ron Howard consegue fazer um filme discreto, sóbrio, mas que arrisca pouco, sendo demasiado próximo do formato teatral que deu origem ao argumento (peça de Peter Morgan). Baseando-se nas interpretações sólidas dos dois protagonistas, Ron Howard encosta-se e não resiste mesmo a pontuar o filme com alguns artifícios desnecessários. Ainda assim, deve ser dos melhores filmes que já assinou (mas tenham em conta a limitação do elogio). E funciona bem a centralização do filme nestes dois homens e a reflexão que é feita através deles, dos seus destinos, do poder dos media.

O que acaba por ser mais tocante no filme é o retrato de Nixon. Aquele momento em que elogia Frost, dizendo-lhe "You have no idea how fortunate that makes you, liking people. Being liked. Having that facility. That lightness, that charm. I don't have it, I never did" é, para mim, o momento que resume tudo. Que nos mostra como aquele homem sabe que não foi amado, como sempre lhe faltou aquela lightness, aquela qualidade inata dos grandes líderes. E como, do início e até ao fim, as câmaras de televisão lhe ditaram a derrota.

5 comentários:

Filipa Júlio disse...

mas o ron howard continua a ser um dos maiores copinhos de leite de que há memória.

Fifeco disse...

Por acaso considero que Peter Morgan adaptou excelentemente esta obra. Aliás, quanto a mim, Frost/Nixon é o exemplo de como Doubt deveria ter sido adaptado. nesse sim, nota-se a influência teatral.

Cláudia disse...

Filipa: não digo nada em contrário, acho Ron Howard um tarefeiro ;) mas aqui não se saiu muito mal, o que acaba por ser um grande elogio tendo em conta a limitação do seu talento.

Fifeco: não vi Doubt, quanto ao Frost/Nixon admito que a influência teatral se nota mais nas entrevistas, onde o espaço se fecha e tudo se resume aos 2 protagonistas. Ainda assim, culpo mais Ron Howard do que o argumento pela pouca agilidade que o filme mostra a espaços.

R. disse...

Eu, por cá, gostei genuinamente deste filme. O Nixon de Langella arrancou-me, para lá dos aplausos silenciosos, uma indescritível simpatia por aquele homem derrotado e a forma como o sol se pôs na sua vida.



PS: (Muito) bem vinda de volta Miss Wasted Blues.

Cláudia disse...

Ora, por quem sois :)

De facto, o Langella é um Nixon fenomenal.