19 dezembro 2008

There Will Be Blood

Photobucket


Haverá sangue neste filme, mas o que jorra antes é o petróleo. Esse sangue da terra, negro e poderoso, que cega os homens. Homens que se perdem para o encontrar. Cujas almas ficam negras e cegas de vida e esperança.

Estamos no início do século 20, na Califórnia, e Daniel Plainview chega a Little Boston. Uma região árida, onde a fé e o trabalho preenchem a vida dos habitantes. Um desses habitantes é Eli Sunday, evangélico e fanático profeta. Entre os dois estabelece-se uma sociedade que cresce à medida que o petróleo surge da terra. Uma sociedade que se torna numa relação obscura, que começa a mudar Daniel, um solitário mineiro transformado agora em magnata do petróleo. E o tempo que passa é corroído pela ambição e pela fé.

Inspirado em “Oil”, um livro publicado em 1927, There Will Be Blood conta como valores que definiram a sociedade e a economia dos Estados Unidos acabaram por ser deturpados pela corrupção, fraude e ganância, aqui personificados por Daniel Plainview. Uma personagem composta por Daniel Day-Lewis, que tem tanto de fascinante como de repulsiva. Num retrato de alguém que se deixa consumir pelo negrume, deixando pelo caminho a sua própria humanidade.

Não é o épico que eu esperava, que me fizeram acreditar ser. Mas Paul Thomas Anderson volta a mostrar porque é um dos maiores realizadores da sua geração. A nível técnico, o filme é intocável. E reforça o caminho que Anderson tem vindo a percorrer, procurando uma narrativa cada vez mais visual. Os diálogos, depurados, são de uma grande força, mas geridos a espaços. Não é por acaso, por exemplo, que os primeiros vinte minutos de There Will Be Blood sejam puramente visuais. Só há uma coisa que não suporto bem neste filme de excessos e demência - a música.

9 comentários:

Ricardo disse...

Ahhhh! Um regresso ao que me fazia vir aqui todos os dias! As críticas bem sustentadas e informadas. Mesmo aquelas com as quais não concordo (neste caso em particular a música no meu entender entrosa-se na perfeição com a acção, inserindo-se inclusive numa tendência oposta às imagens que ilustra em jeito de diálogo contraditório, que muito me agrada) no seu todo ou em parte trazem sempre algo de interessante e bem escrito que dão os minutos que se usam na sua leitura por bem empregues.

Ahhh e fico feliz por afinal até os mais indefectíveis demorarem tempo a ver certos filmes. Pensava eu que o mal era já só meu. (sim também só vi esta em casa)

P.S.: O que acima afirmo não significa que não haja outros pontos de interesse no blogue, mas tu sabes o que eu quero dizer ;)

Nuno Gonçalves disse...

É sem dúvida um dos maiores filmes do ano, um verdadeiro opus de Paul Thomas Anderson. E concordo com a análise que fizeste do retrato de Plainview enquanto reflexo de uma ambição indomável pelo poder que acaba por contaminar não só o próprio mas tudo à sua volta. Como se pode comprovar pelas últimas cenas, nas suas veias já só corre mesmo crude.

PS: O que achaste do Australia?

Paulo disse...

Eu cá acho que a música até ajuda a atingir ainda melhor esses excessos e demência. É um grande filme :-)

Izzi disse...

Eu gostei bastante deste filme. Mas é desde já um daqueles que não quero ver tão cedo. É poderoso a esse ponto - pelo menos para mim - e, falando daquilo que não suportas, a música contribui muito para esse desconforto que é acompanhar toda a trajectória deste prospector. Um grande filme com grandes interpretações, como Paul Dano (já para não falar do oscarizado Daniel Day Lewis), que não minha opinião, está brilhante!

wasted blues disse...

Ricardo: entendo a função da música, sabes que sim, mas incomoda-me, é estridente. Nunca compraria o cd, por exemplo, acho que só faz sentido inserida no próprio filme.

Nuno: é um grande filme e apenas lamento só o ter visto há pouco tempo. Até o fim do ano, quero ver mais alguns que me escaparam para poder fazer um balanço mais justo. Quanto ao Austrália, depois lês ;)

Paulo: como disse ao Ricardo, entendo a função, mas não gostei. Incomoda-me...

Izzi: pois, só o vi há uns tempos e não o conseguirei voltar a ver tão cedo. É poderoso!

Gonçalo Trindade disse...

É, até agora, o meu favorito do ano. Enorme em todos os sentidos. Pessoalmente adorei a banda-sonora (aquela cena da explosão de petróleo...), mas percebo bem que a chames de "estridente"... é-o, de facto. Fora do normal, nada subtil. Pessoalmente achei que servia ao filme que nem uma luva, mas percebo bem que discordem. Ahh, e após ter visto recentemente My Left Foot, posso dizer que o Daniel Day-Lewis é, de facto, possivelmente o maior actor do cinema contemporâneo. Enorme, enorme!

Nuno Gonçalves disse...

You little tease :)
Hehe

wasted blues disse...

Gonçalo: como disse, entendo a sua função, mas não tenho de gostar ;)

Nuno: :D

Fifeco disse...

Por acaso confesso que também estava à espera de algo muito melhor. Não que seja um mau filme, bem longe de isso. Mas esperava um épico intemporal que, quanto a mim, acabou por não aparecer.