05 fevereiro 2008

Expiação

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expiação
do Lat. expiatione

s. f., acto para aplacar a divindade; castigo ou sofrimento de pena, imposto ao delinquente, como uma compensação do delito praticado; penitência; reparação.

Até hoje só li um livro de Ian McEwan, Amesterdão. Foi há alguns anos e confesso que das palavras e da história só tenho uma vaga recordação, mas uma boa recordação. Depois, porque há tanto para ler, tanto para ver, não voltei ao autor até Expiação. Agora, que comecei a virar as páginas do livro, as personagens já têm rostos. Tenho pena. Gosto sempre de ler os livros primeiro, quando a minha própria imaginação reina.

O filme vi há uma semana. A sensação que me deixou foi a de uma obra desequilibrada, entre uma primeira parte de louvar e um meio perdido, até chegar ao final triste, surpreendente e até belo. O acto primeiro de Atonement tem o dom de nos envolver naquela época, de querer conhecer aqueles personagens. Sempre gostei de filmes que nos permitem usar todos os sentidos e o início de Atonement consegue-o. Sentimos o cheiro daquela casa, dos seus jardins, o toque dos dedos na máquina de escrever, o arrancar de um pedaço de porcelana, o murmurar, o arrepio de um mergulho inesperado.

Depois, há toda a modernidade que Joe Wright carrega para aquela época (vésperas da Segunda Guerra Mundial) à semelhança do que tinha feito em Pride and Prejudice. A história não é linear, recuando e avançando para nos dar perspectivas diferentes dos mesmos momentos. Primeiro seguindo o olhar de Briony, uma criança de imaginação fértil, que observa a irmã mais velha e o jardineiro. Depois, vemos o que se passou entre eles. Mas são as observações de Briony que condicionam os acontecimentos, é pelos seus olhos que o destino se altera.

O problema de Atonement acontece quando chegamos ao segundo acto. Não me incomoda por ser algo artificial, até porque estamos nos domínios da imaginação de Briony, se pensarmos nisso. Mas porque embalados pelos acontecimentos do primeiro acto, o salto é demasiado brusco. Só voltei a sentir o filme quando fui surpreendida por Vanessa Redgrave. Ela é Briony envelhecida, que escreve para expiar uma vida condicionada por uma eterna mentira. A sua expiação, a sua reparação, construída em palavras de uma história que quis partilhar e pela eterna imaginação que agora serviu para reparar em sonhos o que destruiu na realidade.

4 comentários:

Cataclismo Cerebral disse...

Acho que, no geral, é um melodrama bastante equilibrado, com um conteúdo formal pertencente à modernidade e extremamente sedutor. Tem um bom elenco, uma boa fotografia e uma banda-sonora obsessiva, que constituem logo pontos fortes que me agradam. Adoro o facto da arte desempenhar um papel redentor nesta história e adoro aquele final memorável (que faz a devida justiça a um amor que não teve oportunidade de viver). Pode não ser perfeito, mas é bem bom :)

Abraço!

Maria del Sol disse...

Não entrei na sala de cinema com expectativas muito elevadas mas saí dela bastante bem impressionada. Encontrei mais intensidade emocional do que esperava , uma fotografia muito envolvente, e, como disse o Cataclismo, uma banda sonora obsessiva. Foi uma boa surpresa :)

wasted blues disse...

Cataclismo: mantenho essa sensação de desequíbrio, o filme podia ter sido mais. Quanto à banda sonora, gostei bastante. Acho-a indicada para o filme, ao contrário de algumas críticas que li que a consideram intrusiva ou exibicionista.

Maria: o filme fez-me ir logo de seguida à Fnac comprar o livro, o que não é nada um mau indício ;)

tussis disse...

Gostei muito da tua descrição do filme, das que tenho lido é a que melhor enquadra o que senti ao ver o filme. Puxa muito pelos nossos sentidos e acho que se deve imenso à fotografia e banda sonora, já referidos.