12 janeiro 2008

In the Bedroom

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And a verse of a Lapland song
Is haunting my memory still:
"A boy's will is the wind's will,
And the thoughts of youth are long, long thoughts."


My Lost Youth - Henry Wadsworth Longfellow

Quando em Portugal se traduziu In the Bedroom por Vidas Privadas, o sentido perdeu-se. Porque se transformou a metáfora numa generalização, num nome que podia pertencer a tantos outros filmes. Porque In the Bedroom é a metáfora que nos é mostrada a certa altura no filme de Todd Field, entre lagostas e sabedoria popular.

In the Bedroom é baseado num pequeno conto de 15 páginas de Andre Dubus, chamado Killings. Todd Field tem a mestria de nos apresentar as suas personagens sem nos deixar indícios do que vai acontecer. Ainda assim, quando nos primeiros planos vemos paisagens suaves e carícias de Verão, a nossa curiosidade sobre o que se vai passar a seguir já existe. Mas ainda nada sabemos sobre o drama, sobre o silêncio que se contém, sobre as palavras gritadas em surdina.

O que nos toca em In the Bedroom é a sua (aparente) simplicidade. São pessoas reais que o compõem, habitantes de uma localidade no Maine, entregues às suas vidas. A câmara de Todd Field mantem-se numa cuidadosa distância, como se não quisesse perturbar o que observa. E é por isso que, quando tudo acontece, embora não inesperadamente, nos sentimos de mãos atadas. Porque pressentimos o perigo e não pudemos fazer nada para o evitar na nossa condição de observadores. Mas é justamente quando tudo acontece que o filme vai mais longe. Quando se encontram os verdadeiros protagonistas desta história, os que ficam.

Os pais, até àquele momento, observadores como nós, são agora retrato de uma dor que não é dita, perdidos num frágil equilíbrio. Não consigo imaginar a dor de perder um filho, como se compensa uma perda assim, onde depositámos todo o nosso futuro, os nossos sonhos. Como se encontra tranquilidade para o que nos surge na mente e não conseguimos dizer. Em In the Bedroom, procura-se apaziguar essa dor pela vingança, numa redenção que não é possível. Porque quando voltamos ao quarto, não é tranquilidade que ali existe. Ali ainda mora a dor, o vazio, o silêncio contido.

PS - Vi o filme pela primeira vez ontem. Lembro-me bem das boas críticas quando estreou, mas foi-me escapando.

2 comentários:

Cataclismo Cerebral disse...

Primeiro, deixa-me dizer que os títulos das obras do Todd Field são muito maltratados no nosso país. Segundo, adoro o filme! ;) Confesso que na primeira vez que o vi, o final deixou-me de pé atrás. Agora, após alguns revisionamentos e alguns aninhos, sei que não poderia encerrar de outra forma. O filme é quase obsceno na forma como nos convida a observar aquelas existências e ao mesmo tempo nos coloca numa situação de voyeurismo (com uma dimensão assinalável na recta final). Sissy Spacek e Tom Wilkinson são assombrosos e mestres na contenção, mas percebe-se toda a convulsão interior que contêm (a cena da cozinha é espelho disso mesmo). Permite-me,no entanto, que faça justiça a uma actriz com uma carreira irregular, mas dona de um imenso talento: Marisa Tomei.

Abraço

gonn1000 disse...

Não me entusiasmou muito quando o vi na altura, mas gostei tanto de "Little Children" que vou tentar revê-lo assim que possa.