14 novembro 2007

Eastern Promises

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Pode haver spoilers.

Não fui ver Eastern Promises de mente tranquila. Este tem sido um ano cinematográfico mediano e de desilusões, por isso acalmei as expectativas em relação à última obra de David Cronenberg. Mas o que o trailer prometia, o filme cumpre. E supera.

Eastern Promises é um filme cru, brutal, quase visceral, mas de uma inesperada humanidade. Marcado pelos tons vermelhos que invadem os planos, sejam vermelhos de sangue, de um vestido de menina ou de um restaurante que funciona como microcosmos, esta é uma obra desconfortável. Há um corte hesitante de uma garganta, logo a seguir uma jovem sangra no chão de uma pequena mercearia. E assim, a frio, entramos no universo da máfia russa. Há tatuagens que são livros de vida, rituais, lutas de corpos em que sentimos cada murro, cada golpe desferido. Aquele mundo é violento, os laços que o unem são os da tradição, do nome a defender, da honra.

É neste mundo que entra, incauta, Anna. Ela trabalha no hospital onde dá entrada a jovem que sangra. Que, ao morrer, deixa para trás um bebé e um diário. Para encontrar a família da jovem, Anna procura traduzir o diário, escrito em russo, e bate à porta do restaurante de Semyon, onde se escondem os segredos da máfia russa de Londres. Sem querer revelar muito mais sobre a história, porque é um filme que merece a descoberta, posso dizer que Eastern Promises não é apenas um retrato dos rituais de que falei, mas também das teias desta máfia que se entranha no desespero de quem procura uma vida melhor.

Marcado pelas boas interpretações, Viggo Mortensen merece o destaque. Quando ele diz a Anna "Valor sentimental? Já ouvi falar disso.", acreditamos que não há ali qualquer emoção. Viggo enche o ecrã com a sua altivez, a sua frieza e a sua ambiguidade. O seu Nikolai é uma das das suas melhores interpretações de sempre.

Podia continuar a escrever sobre esta obra perturbante, negra e vermelha, de surpresas escondidas. Da sequência da sauna. Ou de como fazemos a madeira chorar. Mas resta-me, por agora, agradecer a Cronenberg por quebrar a mediania. Embora Eastern Promises seja um bom filme em qualquer ano.

19 comentários:

bbrown disse...

Mais uma crítica, mais uma referência — por pequena que seja — à "cena da pilinha". Já é um momento clássico.

wasted blues disse...

Estás a anotar num caderninho? :S

bbrown disse...

Não, para já uma folha tem-me chegado.

wasted blues disse...

Eu não estava a ser irónica. Sinceramente, resumir aquela sequência à "cena da pilinha" das duas, uma: ou não viu o filme, ou passou ao lado da cena. Porque a sequência não tem absolutamente nada de gratuito. É brutal e crua como o filme.

bbrown disse...

"Eu não estava a ser irónica."

Eu estava.

Mas se é um ponto assim tão sensível, pronto, a partir de agora só comentários solenes, e nunca à custa da integridade artística do Sr. Cronenberg (a qual eu nunca ponho em causa). Isto sem qualquer tipo de ironia.

wasted blues disse...

Desvantagens do on-line, não há entoações. Credo, não quero só ter comentários solenes, que isto não é uma repartição pública :P

Simplesmente, o filme mexeu comigo, gostei mesmo. E depois de escrever tantas linhas sobre ele, o único comentário ser sobre a "cena da pilinha" é algo frustante... Mas no harm done ;)

bbrown disse...

Um mal-entendido reminiscente do "Curb Your Enthusiasm". É bom que tenha ficado tudo esclarecido. E se não disse mais sobre o filme, é porque ainda não o vi (logo, pelos vistos, mais valia estar calado).

(notes to self: 1) usar os smilies; 2) não tentar humor às duas e meia da manhã)

wasted blues disse...

Esclarecido :) E quando vires o filme, vais perceber melhor o que quero dizer!

(notes to self: 1) não responder a comentários quase às 4 da manhã :S)eheh

M.Ferreira disse...

Está no meu Top 3 das obras mais esperadas( juntamente com There Will Be Blood e No Country For Old Men) e depois desta boa referência a expectativa aumentou!=)

Anónimo disse...

Alguém sabe quando estreia o dito filme em Portugal?

Inês

wasted blues disse...

M.Ferreira: correspondeu às minhas ;) Também estou ansiosa por esses 2 que referes e também pelo novo do Wes Anderson, entre outros.

Inês: está previsto estrear a 29 de Novembro.

P.R disse...

É sem dúvida um dos melhores do ano. E Viggo merece o céu com este desempenho. Excelso :)

Gonçalo Trindade disse...

Não li o post inteito, com medo de spoilers :p... mas mal posso esperar por ver isto, e fico satisfeito por este não ter desiludido ninguém até agora... o Cronenberg está numa fase interessantíssima. Se este Eastern Promises for tão bom como o A History of Violence, fico satisfeito :)

wasted blues disse...

P.R: completamente de acordo!

Gonçalo: o spoiler é minúsculo, não estraga nenhum visionamento, mas preferi avisar ;)

Cataclismo Cerebral disse...

Há uns tempos estava com a sensação que este ano cinematográfico não estava a ser de boa colheita, mas agora a minha opinião mudou: se excluirmos os blockbusters (que não tiveram grande recepção crítica) e pensarmos nos filmes de menor orçamento, veremos que gouve uma mão cheia de coisas boas. Half Nelson, Little Children, Bug, Fur, Notes On a Scandal, The Brave One e Venus são só alguns exemplos. E ainda faltam pérolas como este Eastern Promises, que creio ser bem interessante. Já agora, parabéns pela excelente crítica.

youknowwho disse...

"Este tem sido um ano cinematográfico mediano e de desilusões"

Mediano?? Juízo miss blues ;)

wasted blues disse...

I don't know who, para mim sim e digo isto com todas as minhas faculdades mentais, juízo incluído ;)

elbuceador disse...

Creo que tienes muchacultura cinematográfica y los post de tu blog me parece interesante de visitar para aprender algo mas de ese cine que no está tan publicitado en televisión.
Por otro lado la historia de la pelicula que cuentas me parece algo parecido al cine que hace Tarantino.Aunque con un argumento mas solido que una simple venganza.
saludos

Anónimo disse...

Grande filme! Esse mais o dos Coen Brothers e do PTA já bastam pra valorizar o ano. Só acha ruim a medianidade quem vai no cinema diversas vezes por mês. Fica vulgar.
Escolha só os melhores.