19 abril 2007

Manhã

As paredes há muito que perderam a identidade e a cor, mas continuam a guardar a intimidade familiar. As festas dos parentes que nunca se vêem, a não ser nos dias próprios, incontornáveis, de folia obrigatória. A vizinha espreita na sua acesa curiosidade. Sede de novidades. Olha-me como um ser estranho, que não pertence ao degrau onde me encontro. Desdobro o jornal com particular meticulosidade. Gosto de jornais. Destas folhas que, mesmo acabadas de comprar, já estão velhas. Não há melhor forma de ver o dia, depois de uma noite de horas longas. Devagarinhas. De-va-ga-ri-nhas. Escrito assim mesmo. É um despertar de manhã lisboeta, com o progressivo apagar de candeeiros. E as crescentes vozes matutinas. De gargantas ainda ensonadas. Para ser perfeito, juntava aos degraus, ao jornal e à vizinha curiosa, umas castanhas quentinhas com sabor a Inverno. Mas esse já lá vai. E começo a murmurar um poema da M. que tem trejeitos de P.J. Harvey... o poema ou a M.?

It's just me at the door
With a bottle of cheapwine and
A thousand apologies...

2 comentários:

Herlander Rui disse...

Já tive despertares mais complicados. ;)

PE disse...

eu então, sou uma autêntica "parede" p'la manhã :)
mas é um belo "bom dia", disso não tenho dúvida.
bj