05 janeiro 2007

Westerns

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Não gostava de Westerns. Era um género que não me cativava, talvez por estar sempre do lado dos índios. Não conhecia então as amizades, os códigos, os mitos. Apenas evitava o género. Até que um dia, um amigo me colocou nas mãos Rio Bravo, de Howard Hawks. É certo que ali não há índios, mas tudo o resto existe. E esse tudo levou-me ao mundo dos Westerns. Vieram The Searchers, The Man Who Shot Liberty Valance, The Man from Laramie, Red River. E depois veio até Sam Peckinpah e a sua wild bunch e Sergio Leone com os seus grandes planos, spaguetti-made. E tantos outros.

O ciclo de Janeiro na Cinemateca é, justamente, dedicado à América dos Westerns. O primeiro filme a ser mostrado foi Stagecoach, de John Ford e do ano dessa rica casta de 1939 que nos trouxe, entre outros, The Wizard of Oz, Only Angels Have Wings, Mr. Smith Goes to Washington, Gone with the Wind ou Ninotchka.

Stagecoach é o regresso de John Ford ao Western numa época em que o género ainda não tinha conquistado o público. Tanto que tentaram dissuadir o realizador de criar o filme e, assim, de criar também um marco e um modelo para todos os Westerns que se seguiriam. Foi também aqui que um actor de B-movies se tornou uma estrela, de um momento para o outro – John Wayne. Ironicamente, esta rising star iria ficar muito magoada com o nascimento de outra estrela que lhe roubou protagonismo, nove anos depois, em Red River.

John Ford concentra em Stagecoach um microcosmos de personagens. Todos, naquela caravana, querem chegar a Lordsburg, mas cada um tem o seu motivo. O filme, que se divide entre o interior da caravana e o majestoso Monument Valley, é um olhar sobre a sociedade, o preconceito e a fragilidade desse pré-conceito.

É notável observar a forma como o realizador subverte os olhares e as aparências de personagens marcadas desde o início da viagem. É notável ver Lucy Mallory, arrogante esposa de um oficial, a engolir o orgulho quando necessita de Dallas, prostituta expulsa da cidade pela liga de honra, e de Doc Boone, o médico sempre bêbado que entra na caravana porque já não pode pagar o aluguer do quarto. É notável ver Dallas a recuperar a sua dignidade quando descobre o amor de um jovem pistoleiro, Ringo Kid, que fugiu da prisão para vingar o irmão e o pai. É notável também ver Hatfield, jogador veterano sem escrúpulos a tornar-se num perfeito cavalheiro. E mais notável ainda é a total inversão de aparências, quando, no final, é revelada a hipocrisia do único senhor que entrou na caravana, mas o único também que não saiu como tal.

E depois há todo um Cinema, com C grande, que culmina num nunca antes visto ataque de índios Apache à caravana e num duelo final em suprema elipse. Stagecoach é Cinema em estado puro. Mas continuo a ter pena dos índios.

11 comentários:

Nuno Pires disse...

Belíssimo texto.
Infelizmente, não vi Stagecoach...

Luís António Coelho disse...

O teu texto está muito bom, mas nunca hei de conseguir sentir admiração pelo cinema de John Ford. Admito que ele filmava bem (diz-se que Orson Welles viu dezenas de vezes o "Stagecoach" antes de realizar o "Citizen Kane), mas o tratamento que John Ford dá às suas personagens nunca me convenceu. Talvez porque ele as tratava apenas como "personagens", apenas como "símbolos", e não como seres com a sua própria identidade. Não tenho nada contra westerns (o "Johhny Guitar" e o "Aconteceu no oeste" estão entre os filmes da minha vida), mas John Ford é daqueles realizadores a quem nunca consegui reconhecer a genialidade de quem os livros tanto falam

wasted blues disse...

Nuno - vou comprar a edição especial em DVD, depois empresto-te ;)

Luís - Não consigo reconhecer a genialidade de realizadores através de livros, só através dos filmes.

Por sinal, comecei a gostar de John Ford justamente pelos filmes que não são Westerns - The Grapes of Wrath, How Green Was My Valley, The Quiet Man...

Nuno Pires disse...

Merci :))

Dário Ribeiro disse...

Comecei a gostar de westerns com o incontornável Sergio Leone. O C'era una Volta il West é para mim "o" Western. E o seu duelo final... é qualquer coisa de magnifico.

Sam Pechinpah... filmes conheços poucos... mas existem alguns na minha lista a ver, alguns quase obsessão. Tenho que tratar disso. ;0)

Turat Bartoli disse...

Por razões consideravelmente óbvias deixo passar, mas a rica casta de 1939 teve ainda essa magnífica obra-prima hitchcockiana que é "Jamaica Inn", 1 portento do filme de aventuras! Mas pronto, eu até se calhar estou sozinho nisto- ao dizer que é 1 dos meus 2 Hitchcock's preferidos então é que devo estar tão sozinho e abandonado como 1 negro no mundo do ténis...

Hugo Alves disse...

Não há ninguém tão hábil como Ford na exploração da profundidade do campo. Talvez um dos mais experimentais westerns clássicos este Stagecoach (frase aparentemente desconexa e desrazoada. Ou não...)

Belíssimo texto, miss WB :-)

R. disse...

Rio Bravo é o melhor Western de todos os tempos.

"John T. Chance, T. for trouble."

THE END

Luís António Coelho disse...

Tens razão, Wasted Blues. A genialidade dos realizadores não se descobre nos livros, mas nos filmes. E aí é que está o meu problema com o John Ford. Já devo ter visto mais de 30 filmes dele, e os meus preferidos continuam a ser os menos fordianos e dos menos falados nos livros: "Mogambo", "The last Hurrah" e, se for tão bom como pensei que era na altura em que o vi quando tinha 13 anos, "A patrulha perdida". O Hugo Alves também tem razão: o John Ford é muito bom a explorar a profundidade de campo. Aliás, ele filma bem, ponto final. Mas cada vez que as suas pesonagens abrem a boca, principalmente nos westerns, perco qualquer tipo de fascínio pelos filmes dele. O Henry Fonda, que eu adoro ver no "Aconteceu no Oeste" do Leone, acho insuportável nos filmes do Ford. É sempre um modelo de virtudes, mas com um orgulho e uma honradez tão paternalista que me irrita. Mas os heróis de John Ford são sempre assim, porque era assim a sua visão da conquista do Oeste. Tenho perfeita consciência de que é uma heresia para os cinéfilos falar mal do John Ford, e eu bem tentei ao longo da minha vida gostar dos filmes dele. Mas quando penso em elogios a fazer à sua obra, o primeiro que me ocorre é ter tido pelo menos o bom gosto de nunca ter utilizado o Gary Cooper nos filmes dele.

Anónimo disse...

Cra Wated:

até o Ford "se arrependeu" do que fez aos indios. "Cheyenne Automn". E partes de "Fort Apache"

Miguel Domingues

(desculpa o anónimo, mas esta história do Beta...)

Anónimo disse...

"Cara", queria dizer.

Miguel Domingues