31 janeiro 2007

Little Children

Photobucket - Video and Image Hosting

Naquela cidade tudo é perfeito, idílico. Todos têm belas casas de cancela branca, jardins tratados e erva podada. Ali, as mães dedicam-se aos filhos quase exclusivamente. Passam as tardes no jardim infantil, em alegre rotina, de conversas do dia-a-dia. Estamos numa pequena cidade suburbana, nos Estados Unidos, onde os vizinhos se conhecem e partilham hábitos.

A esta comunidade regressa um homem condenado, há dois anos, por um crime sexual. Recebido como um monstro, é hostilizado e temido. A sua fotografia é colocada por toda a cidade, obra da recém-criada comissão de pais preocupados com a segurança das suas crianças. Mas no submundo de quem condena, também existem segredos.

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Sarah sente-se desajustada enquanto ouve as conversas de outras três mulheres. Todas vigiam as crianças que brincam. O narrador diz-nos que Sarah se esforça num sorriso de entendimento, de quem não ouve com atenção o que está a ser dito, nem quer. Até que um dia, regressa à pacatez do pequeno jardim de baloiços e risos infantis, um pai. Nesse dia, Sarah quebra a rotina das conversas quando faz o que nenhuma das outras mulheres tivera coragem para fazer - dirigir-lhe a palavra.

Brad, casado com uma mulher independente, preenche os seus dias a tomar conta do filho e a estudar para o exame da Ordem dos Advogados que já falhou por duas vezes. Sarah ainda não se encontrou como mãe e tem um marido ausente que se refugia no trabalho e pornografia na Internet. Entre os dois, desenvolve-se uma amizade que se serve dos filhos de ambos para tudo bem parecer aos olhos da sociedade. Solitários, os dois acabam por dar início a um romance secreto. Uma paixão proibida que leva Sarah a rever-se em Madame Bovary, livro que leu em adolescente e que só agora compreende. Madame Bovary, Sarah, ambas mulheres que querem escapar aos seus destinos.

Mas regressemos ao homem da fotografia. Visto como um monstro, descobrimos que é, no fundo, um ser infeliz, consciente das suas disfunções. Vive com a mãe idosa, a única que o ama e que sofre pelo filho. Sabe que não viverá para sempre e que Ronnie ficará sozinho, desprotegido a seu ver. Reconhecemos-lhe todo esse amor de mãe quando defende o filho contra Larry, o fundador da comissão de pais e responsável pelos cartazes. Homem também ele solitário, perseguido, sabemos mais tarde, pelos seus próprios fantasmas e segredos. Homem, ironicamente, desmascarado pela mãe de Ronnie. A mulher que tem o amor de mãe que Sarah ainda não descobriu.

Little Children é, por isso, um filme retrato, onde as personagens se cruzam de formas inesperadas, mas sem recorrer à lógica de puzzle (a meu ver, ainda bem). Uma obra que fala de redenção, de renúncia, de (re)descoberta e de aceitação. Do que somos, de quem somos, do que significamos, do que carregamos connosco, do que aprendemos.

8 comentários:

_Loot_ disse...

Fiquei muito curioso. Tenho de ver

Francisco Mendes disse...

Mais um romance do Perrotta adaptado, depois de Payne ter trabalhado em "Election". Desta feita vem é a vez de Field (que me surpreendeu com "In the Bedroom") colaborar com o escritor. Curioso sentir em Field uma determinada vibração kubrikiana (com as devidas distâncias, claro!).
Aliás, curiosamente ele desempenha um papelito em "Eyes Wide Shut".

H. disse...

Filme belíssimo, embora muito cru também. Já tinha gostado bastante do In the Bedroom, mas creio que Field mantém o nível qualitativo com este filme.
Personagens riquíssimas (a mãe de Ronnie é uma das minhas 'favoritas'), retrato de um mirco-universo muitíssimo interessante (mas o subúrbio inspira grandes filmes, lembremos American Beauty).

Só uma coisa, o Brad não estuda para o exame. Deixa-se sempre ficar à porta da biblioteca a ver os skaters que se lhe afiguram como um espelho da sua despreocupação juvenil de outros tempos...

wasted blues disse...

Eu sei, Helena, mas isso é quase um spoiler ;)

gonn1000 disse...

Muito bom, quase quase excelente (o final não me convenceu por completo), o melhor de 2007 até agora.

Joana C. disse...

é um belíssimo filme sobre os segredos e desejos que todos nós temos.

Insano disse...

Um filme sobre as escolhas da vida.... as consequências destas... e se há tempo para voltar atrás...
Um filme sobre o amor e o egoismo, como a sociedade torna estes 2 conceitos em algo comum por vezes...

Um bom argumento, bem realizado e com um conjunto de excelentes actores, Kate Winslet mais uma vez não falha e a nomeação acenta como uma luva, tal como Jackie Earle Haley, num dificíl papel de pedófilo. Acho que se esqueceram de Jennifer Connelly, a "ausência" dela no filme acho que essencialmente se deve à sua excelente perfomance.

O filme tem para mim um defeito, que lhe retira alguma magia, um narrador irritante, a explicar o que se passa.... as imagens bastavam.... acho que é grande falha do filme.

7,5/10

Nota: É mais um "Happiness" que um "American Beauty".

Maria disse...

O novo layout do meu blog tem a cena do beijo entre Sarah e Brad.