04 dezembro 2006

The Queen

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Há tantos anos que (re)conheço a expressão "princesa do povo" que nunca me questionei quanto ao seu nascimento. Recordo-me daquele dia. Estava numa colónia de férias, sem grande contacto com o exterior. Mas, nesse dia, tínhamos ido à aldeia mais próxima e a televisão só mostrava a princesa. A do povo. Depois não soube mais nada, ainda faltava uma semana para o fim das férias.

É justamente essa semana que é retratada no filme de Stephen Frears. Uma semana enorme, tal o peso das responsabilidades e compromissos, das dúvidas e incertezas, das decisões e sentimentos. É essa semana que o realizador nos mostra, concentrando o seu olhar na reacção da família real inglesa à morte de Diana.


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"Uneasy lies the head that wears a crown"

The Queen, mais do que um filme sobre a morte de Diana, mostra como esse acontecimento se tornou um espelho da inaptidão da família real, no geral, e da rainha, em particular, em lidar com o seu povo. Além disso, é também um filme sobre a tradição e a modernização, aqui figurada pelo recém eleito Tony Blair, o novo primeiro-ministro britânico. Enquanto a rainha e a família real querem tratar do funeral de Diana como algo particular, de índole íntima e familiar, Tony Blair percebe logo de imediato que um acontecimento deste tipo nunca se irá restringir à esfera do pessoal.

A rainha é uma figura do passado, que não entende e chega mesmo a subestimar o poder dos meios de comunicação social. A rainha que julga conhecer o seu povo e o que esse povo exige de si, passa a ser vista como alguém incapaz de sentir e de perdoar. À medida que a imprensa sobe o tom de indignação pelo facto da família real não estar em Londres e não prestar qualquer tipo de homenagem no adeus à princesa, sobe também o rancor do povo inglês, que não percebe a atitude da sua rainha. O que a rainha entende como proteger os netos que perderam a mãe e seguir os protocolos para alguém que não fazia já parte da família real, é lido pelo povo e pelos meios de comunicação social como ressentimento e até indiferença pela Princesa do Povo.

O filme tem, no entanto, um grande respeito pela rainha. Por exemplo, a primeira vez que Isabel II chora pela primeira e única vez, não vemos o seu rosto. Ela é sempre retratada como alguém íntegro, como alguém que assim foi criada e que não questiona os seus valores de sempre. Por isso, The Queen, acaba por ser um filme de auto-descoberta de uma rainha que toma consciência de que a mudança que não pretende está à sua porta. Uma rainha, retrato de uma instituição, que se vê confrontada com os indícios de mudança e que sabe que, mais cedo ou mais tarde, os vai ter de enfrentar em nome da própria monarquia.

Não deixa de ser curioso como o diálogo final do filme se torna ironicamente (ou não, eu penso que não) actual. Quando a rainha diz a Tony Blair que o povo esquece facilmente, que quem está no topo, pode cair. A rainha soube cair, soube aprender a lição para recuperar o respeito e o amor por si e pela instituição que representa. Outros não terão tanta classe. E sabedoria.

6 comentários:

Nuno Pires disse...

O filme surpreendeu-me pela positiva! E mais pela forma do que pelo fundo.
Ainda por cima foi visto em boa companhia ;)

wasted blues disse...

Algo que não está no meu texto, mas que também apreciei muito - a combinação de imagens "reais" com o filme. Um tom de falso documentário, mas com classe.

Para a semana repetimos a dose ;)

João Ricardo Branco disse...

Concordo com o teu texto! Penso que o filme tem precisamente as características que apontas e os objectivos que referes. Simplesmente, parece que temos opiniões um pouco diferentes relativamente à sua qualidade cinematográfica.

Em complemento deste teu texto, que não é muito explícito quanto à graduação do teu gosto, verifiquei no blog do Nuno – Mulholand Drive –, com quem, curiosamente, fui ver este filme, que gostaste muito e que te aproximas da opinião dele. Ora, eu achei este filme medianamente interessante, mas cinematograficamente débil, excessivamente televisivo (muito para lá das referências explícitas) e um pouco pobre na exploração dramática das personagens. Em todo o caso, é um filme simpático!

PS: fazendo um exame de memória, lembro-me que aquando da morte de Diana me encontrava em casa, mas a notícia teve ainda mais impacto em mim porque uns dias antes tinha estado em Paris, perto do local do acidente…

Joana C. disse...

Também gostei bastante, a Helen Mirren está magnífica. E quanto a isso que dizes de juntar imagens reais, também foi dos pontos que mais me agradou do filme.

wasted blues disse...

João - não acho que seja uma obra-prima, mas foi de facto uma boa surpresa para mim.

Insano disse...

Dreadful Boring!!!!!