Sabia que não queria estar ali. Já não lhe pertencia aquele sítio. Já não entendia as palavras, desconhecia os caminhos que percorria todos os dias. Era como o sonhador de Dostoievski, mas o amor não o atormentava. Escrevia poemas sem sentido, procurando palavras obscuras que combinassem com o estado de espírito. Sentava-se no chão, à procura do quotidiano. Juntava recortes para inventar palavras. Como Mia Couto. Gostava de sujar os dedos nas letras pequenas dos diários e de fazer as palavras-cruzadas. Juntava as palavras e pensava na frase seguinte. O branco seguia-se, fatalista. Dizia a si próprio que podia varrer tudo para debaixo do tapete. Se fosse assim tão simples. Mas não era. A tristeza era nata. Os pensamentos felizes só lhe surgiam em forma escrita, dependentes de inspiração. É complicado entender o que nos falta. Por isso... deambulava nas experiências.
Nota: a foto é do habitante... brilhante!
05 dezembro 2006
Deambulatório
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)

4 comentários:
Algures entre o inconformismo e a necessidade de fugir. Gostei. Muito :-)
Obrigado ;)
...muito bonito.
......muito bonito. Sem dúvida.
..........."É complicado entender o que nos falta. Por isso... deambulava nas experiências.".....
....só verdade.
:-)
Ainda bem que gostaste. A tua foto dá outro ar a este devaneio escrito pela madrugada ;)
Enviar um comentário