05 dezembro 2006

Deambulatório

Photobucket - Video and Image Hosting

Sabia que não queria estar ali. Já não lhe pertencia aquele sítio. Já não entendia as palavras, desconhecia os caminhos que percorria todos os dias. Era como o sonhador de Dostoievski, mas o amor não o atormentava. Escrevia poemas sem sentido, procurando palavras obscuras que combinassem com o estado de espírito. Sentava-se no chão, à procura do quotidiano. Juntava recortes para inventar palavras. Como Mia Couto. Gostava de sujar os dedos nas letras pequenas dos diários e de fazer as palavras-cruzadas. Juntava as palavras e pensava na frase seguinte. O branco seguia-se, fatalista. Dizia a si próprio que podia varrer tudo para debaixo do tapete. Se fosse assim tão simples. Mas não era. A tristeza era nata. Os pensamentos felizes só lhe surgiam em forma escrita, dependentes de inspiração. É complicado entender o que nos falta. Por isso... deambulava nas experiências.

Nota: a foto é do habitante... brilhante!

4 comentários:

Hugo Alves disse...

Algures entre o inconformismo e a necessidade de fugir. Gostei. Muito :-)

wasted blues disse...

Obrigado ;)

o habitante disse...

...muito bonito.
......muito bonito. Sem dúvida.

..........."É complicado entender o que nos falta. Por isso... deambulava nas experiências.".....

....só verdade.

:-)

wasted blues disse...

Ainda bem que gostaste. A tua foto dá outro ar a este devaneio escrito pela madrugada ;)