30 novembro 2006

J.

"Aw shucks", dizia do alto do seu 1,91m de altura. Tinha cara de bom rapaz, um sorriso maroto. O ar desajeitado dava-lhe um ar inocente. Falava pausadamente, com um tom dócil. Nunca teve formação como actor. Apesar da versatilidade que provou ter, ao longo dos anos. Considerava que o trabalho era a melhor escola. Foi escuteiro, quase seguiu arquitectura. Tocava acordeão e sabia pilotar aviões. Aliás, seria a primeira estrela de cinema a alistar-se, um ano antes do ataque a Pearl Harbor. Mas quase seria recusado por ter peso a menos. Acabaria por ser um exemplo de comando no posto de tenente-coronel, durante a Segunda Guerra Mundial. Não gostava de filmes de guerra. Dizia que nunca eram precisos. E correctos. Defendia que não se devia tratar a audiência como clientes e sim como parceiros. O seu primeiro grande papel foi de psicopata assassino. Chegou a ter como melhor amigo um coelho gigante. Três realizadores marcaram-lhe a carreira e a imagem perante o público. Parcerias e personas sempre diferentes. Nomeado para cinco Óscares, venceu dois. Um deles como life achievement. O primeiro iria para a barbearia do pai. Quase foi destronado por Cary Grant em Rope. Quase destronou Cary Grant em North by Northwest. Nos anos 50, tornou-se um dos primeiros actores a receber uma percentagem dos lucros. Era republicano e conservador. Chegou a ser acusado de racista. Não gostava de luxos. Nem que lhe invadissem a privacidade. Tinha duas filhas gémeas e um casamento que durou toda uma vida. Grande amigo de Ronald Reagan, Henry Fonda, John Wayne e Gary Cooper. Aliás, considerava Wayne um dos melhores actores de sempre. Porque tinha mantido as suas qualidades de rapaz. A partir da década de 50 passou a usar um capachinho para disfarçar a careca. Em público, não o usava. Escrevia poesia. Também sabia tocar jazz e blues no piano. Sempre disse que queria ser recordado como alguém competente e honesto. Quando morreu, mais de três mil pessoas foram ao funeral. Era conhecido e acarinhado pelo diminuitivo.

6 comentários:

Nuno Pires disse...

J. for James Stewart? Um dos meus actores favoritos... Inesquecível. Lindo retrato, como sempre...

H. disse...

J., Jim, Jimmy... para mim será sempre o Dean :)
Do Stewart recordo essencialmente os vários papéis que fez para o mestre Hitchcock, nomeadamente o seu dividido personagem de Vertigo e o seu portentoso papel em Rope...

brunobd disse...

Não faz parte dos meus actores preferidos, mas tem uma interpretação brilhante num dos filmes da minha vida: "Rear Window".

Hugo Alves disse...

Jimmy Stewart! O dicionário avança :-)

wasted blues disse...

Nuno - também gosto bastante! Obrigado :)

H. - tudo a seu tempo, cara Helena ;) Claro que este Jimmy se tornou mais conhecido com os seus papéis para Capra e Hitchcock, mas cada vez mais gosto de o descobrir nos filmes de Anthonny Mann!

brunobd - tenta vê-lo nos filmes de Anthonny Mann ou até Ford ;)

Hugo - eheh, vai avançando ;)

brunobd disse...

wasted,

A interpretação dele no "Liberty Valence" é magnífica e também gosto dos Capra ;)

Falta-me explorar o filão do Mann.

Mas Cary Grant, Henry Fonda, Marlon Brando e Jack Nicholson dizem-me mais.