24 julho 2006

B.

Tinha olhos maiores do que o mundo. Um ar altivo de quem sabe ler os outros. Uma sobrancelha inclinada de desdém e uma boca retorcida de ironia. Quando chegou a Hollywood, o representante do estúdio voltou de mãos vazias. Na estação de comboios não havia ninguém que parecesse uma estrela de cinema. Contou várias vezes que o seu primeiro screen test para a MGM tinha sido tão mau que fugiu a gritar da sala de projecção. Defendia que só tentando o impossível se podia melhorar. Que só quando são chamados de monstros é que os actores se podem considerar estrelas. Disse de ela própria que tinha sido o Marlon Brando da sua geração. E que não se retiraria enquanto tivesse as suas pernas e o estojo de maquilhagem. Tinha fama de difícil. Mas marcou a diferença quando se tornou a mulher mais bem paga dos Estados Unidos em 1942. Fez mais de 100 filmes, numa carreira repleta de altos e baixos. Conseguiu regressos dignos de grande senhora do cinema. Detestava a designação de “filmes de mulheres”. Era uma perfeccionista. Não receava perder glamour no ecrã. Tinha (quase sempre), entre os dedos, um cigarro. Foi a primeira mulher a conseguir o Lifetime Achievement Award do American Film Institute. Escreveu três biografias. Vestiu o vestido mais vermelho da história do cinema. Quis ser Scarlett O’ Hara. Foi Margo. Chamava-se Ruth, mas Balzac baptizou o seu nome artístico. No seu túmulo está escrito She did it the hard way.

4 comentários:

Hobbes disse...

E aqueles olhos...

Francisco Mendes disse...

Porque é que sempre que vejo Alison Goldfrapp me recordo da Bette Davis?
Serei o único neste planeta a considerá-las sósias... nas suas tenras idades?

Thanatos disse...

Eu bem me parecia que já tinha visto aqui este post. Deve ter sido um descuido momentâneo. Por momentos pensei ter alucinado mas não... aqui está ele.

E porque será que sempre que ouço falar nesta senhora começo a ouvir na mente a Kim Carnes?

Whatever Happened to Baby...? Será essa a ligação com a janela voyeurística?

Hummm, divago...

wasted blues disse...

Hobbes - ... maiores que o mundo ;)

Francisco - Eu sempre achei a Susan Sarandon parecida com a Bette, em nova principalmente!

Thanatos - Em vez de salvar como rascunho, publiquei antes do tempo. mas foram segundos!

Quanto à janela que tanto te perturba, toma as gotas e acorda do lado direito da cama :P