"They all say I am dark and pessimistic. Some of my pictures show dark things about men and life, of course. Some of the later ones maybe even are a bit pessimistic. However, I think that all my pictures are portraits of the time in which they were made...I always made films about charecters who struggled and fought against the circumstances and the traps they found themselves in. I don´t think that is pessimistic."
Fritz Lang
O filme de 1931, M, realizado por Fritz Lang, foi baseado num caso verdadeiro. O realizador, numa entrevista a Peter Bogdanovich, explicou como surgiu a ideia: "I discussed with my wife, Mrs. Von Harbou, what was the ugliest, most utterly loathsome crime and we thought at first it was the sending of anonymous letters (...). But then we both decided that the most horrible crime was that of a child murderer. I had many friends in Berlin's Homicide Department (...) and through them I came in touch with various murderers. Kurten, the infamous killer of Dusserlorf, I never met."
No filme há uma cidade (Dusseldorf) que, há vários meses, é aterrorizada por um assassino de crianças. A polícia tenta, em vão, capturá-lo por diversos meios. No percurso dessas tentativas de captura acaba por "incomodar" outros criminosos que têm os seus negócios em bares, e que se sentem prejudicados, já que as constantes rusgas policiais aos seus estabelecimentos afastam os clientes. Desta forma, iniciam também eles uma caça ao homem, acabando por conseguir capturá-lo. No fim, levam-no até uma cave onde o espera uma multidão furiosa e ansiosa por fazer justiça pelos seus próprios meios. No entanto, o assassino acaba por ser salvo pela chegada da polícia ao local.
O objectivo de Fritz Lang com este filme era abordar novas temáticas na sua filmografia. O realizador precisava de novos desafios e decidiu fazer um filme mais profundo, acabando por se embrenhar numa história de contornos negros e claustrofóbicos. Muitos viram neste filme o retrato de uma época - a decomposição da sociedade germânica na Alemanha pré-Hitler. A figura do monstro, quase patética, de aparência tão inofensiva e olhos esbugalhados, foi interpretada como símbolo do então ascendente nazismo - prenúncio das atrocidades que alguns anos mais tarde seriam cometidas nos campos de concentração. Para esta associação contribuiu o facto de o título original do filme, Os Assassinos estão Entre Nós (Morder Unter Uns) ter sido modificado para M após a pressão que foi feita nesse sentido, pois temia-se que o título fosse considerado pelos nazis como uma alusão directa ao seu regime.
Hoje, no entanto, é difícil ver em M qualquer alusão política ou profética desse género. O filme mostra-nos antes uma aguda sátira social, em que Fritz Lang explora, com subtil ironia, os efeitos do pânico colectivo. Simultaneamente perseguido pela polícia e por criminosos organizados, que o perseguem por se sentirem prejudicadas nos seus negócios, o assassino não passa de um pobre doente mental, vitima da sociedade. Dominado por uma incontrolável compulsão homicida, ele não pode deixar de matar, ao contrário de seus perseguidores, os mendigos e criminosos profissionais, que poderiam deixar de fazê-lo, se quisessem realmente trabalhar. O sarcasmo atinge o clímax na extraordinária sequência do fim em que o próprio princípio da justiça é colocado em causa.
O tema forte deste filme é a crítica social. Aliás, o próprio realizador sempre elegeu como os seus filmes preferidos aqueles que abordavam esta temática, como M ou Fury (1936). Para Fritz Lang, a "crítica social" era uma crítica do mundo social nas suas leis e nas suas convenções, uma crítica a um sistema e à própria civilização. A perseguição ou "caça ao homem" que é feita neste filme e, mais tarde, retomada em outros filmes do realizador, acaba por ter um efeito surpresa. Ou seja, partimos de um sentimento de compreensão pela dor dos familiares das vítimas para um sentimento de pena por aquele homem gorducho de olhos grandes. O assassino, quando perseguido, acaba por se tornar ele próprio uma vítima. Essa sensação começa com o assassino a olhar para o seu reflexo numa montra, olhando para si próprio, e termina na sequência final, durante o seu discurso. Nesse discurso, a personagem de Peter Lorre faz a sua confissão, mas é uma confissão que nos confunde, que inverte as regras do jogo porque o temível psicopata revela-se então como uma vítima, um doente mental com uma personalidade complexa. Assim, o que começava por ser um filme sobre um crime terrível, acaba também por ser um estudo sobre um assassino patológico e um olhar para dentro da sociedade e dos seus sistemas.
Por fim, um aspecto interessante a realçar neste filme é também o facto de não existir uma história de amor, ao contrário da maioria dos filmes de Fritz Lang. No entanto, este facto parecia provocar um certo orgulho ao realizador, como se pode constatar neste excerto da sua entrevista a Peter Bogdanovich, "Tell me, why should a story about a child murderer hurt anybody's feelings? There's no love story, I grant you (...)" .
M é um marco na história do cinema, um dos primeiros filmes sonoros que soube usufruir dessa nova técnica de uma forma tão perfeita, que tirando os sons essenciais já referidos, é um filme, de resto, extremamente silencioso. Na época do surgimento das palavras e da euforia do cinema sonoro, Fritz Lang soube conter-se e dar-nos o som mais forte – o silêncio. Ou como diria João Bénard da Costa na sua própria análise a este filme, "Tudo reside num assobio e numa dança. Ou seja, no cinema."

1 comentário:
E é um dos filmes da minha vida...
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