02 janeiro 2005

O Quiosque da Utopia I

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"O número 66 da Avenida Katchor, que faz esquina com a rua Calvino, é um armazém anódino, onde antes se localizava a sede do Sindicato dos Videntes Viviseccionistas Vegetarianos, extinto aquando da inesperada contaminação da reserva mundial de batata com o mortífero vírus da Lógica.

Todos os dias, às 15 horas, as janelas do sotão abrem-se pontualmente de par em par, como que movidas por mão invisível. Um ritual que se repete, quaisquer que sejam as condições meteorológicas, e mesmo que o vento de sul torne o odor da Fábrica de Lipo-Sucção, ou o som do ensaio da Pior Banda do Mundo, particularmente insuportável.

Durante a tarde chegam incontáveis mensageiros ciclistas, equilibrando com dificuldade estranhos pacotes de formas irregulares. É difícil adivinhar o que contêm. Livros, discos, adereços de filmes antigos, peças de carros fabricados na década de 50, letreiros de néon avariados. Os mensageiros nada revelam, e nunca se demoram no interior. Partem sempre com outras encomendas indecifráveis, no rosto o sorriso inconfundível de quem acredita em utopias. O que não deixa de ser estranho, já que o Serviço de Entregas Casuístico, a que pertencem, é conhecido pela sua incapacidade crónica de fazer corresponder a um qualquer cliente a encomenda que lhe é devida.

Pela noite dentro escapam-se das janelas iluminadas alguns compassos de melodias cativantes, cujo nome escapa aos transeuntes; ou de músicas perfeitamente identificadas, mas que ninguém parece ser capaz de trautear. Até que as portadas ocres se voltam a fechar sem ruído, por volta da meia-noite.

Há muito que um dos passatempos favoritos da vizinhança (que hoje se reduz à numerosa família Borges) consiste em fantasiar sobre a identidade e profissão do misterioso locatário, oculto por detrás das cortinas de linho tirolês. Um gigante bosquímano jóquei? Um serrilhador de selos amblíope? Uma caçadora de coincidências desempregada? Um decifrador de criptoacústica surdo do ouvido esquerdo? Uma anã lituana inspectora de tectos? Uma manicure daltónica?

Ou um famoso Professor Catedrático do Curso de Sequências de Desenhos Metidos em Caixinhas e Misturados com Palavras, leccionando na filial portuguesa da universidade Imaterial? Talvez mesmo o mais mítico de todos. Aquele que, sob vários peseudónimos, lecciona as cadeiras de Ironia Inquieta, Acasos Quotidianos Obscuros e Irrealidade Poética.

Não que os Borges investiguem o caso com demasiado afã. Como todos aqueles que alguma vez se encontraram numa situação semelhante, temem que a verdade seja muito menos interessante do que as suas conjecturas."

João Ramalho Santos, Prefácio a "a pior BANDA DO MUNDO apresenta O Quiosque da Utopia"

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